A 2014

caspar david friedrich monk by the sea
Como acontece a muita gente, o meu ano também tem dois grandes momentos que se prestam a notas de balanço e predicados resolutivos. Um deles acontece depois das férias grandes, ali para Setembro. Está nostalgicamente ligado ao antigo início do ano lectivo, mas mantém a sua carga renovadora no que hoje se chama de reentré – ou pós-férias, para os plebeus -, com os primeiros esboços dos planos estratégicos, dos orçamentos e outros exercícios corporativos que pensam já no ano seguinte.

O outro momento é o do início do ano do calendário. Está certo, vale o que vale. É um momento puramente simbólico, uma formalidade de almanaque, mas, que querem, gosto de simbolismos. E acho bem que se assinale com grande festa e fogo-de-artifício; excepto cá em casa, onde temos sido obrigados a optar por um jantar a dois acompanhado com ostras, bife tártaro, e outras coisas boas emparelhadas por algum vinho superlativo (um terrível infortúnio, como  se pode imaginar). Este virar de ano presta-se mais a balanços pessoais, resoluções de futuro, e todos esses formalismos existenciais.

Há dois anos, no início de 2012, esse balanço não era particularmente positivo. Estava ainda a lutar com a questão da decisão, e, para piorar, não me sentia muito bem comigo. Apesar de estar genericamente satisfeito com a vida que tinha, não sentia que me estivesse a tornar melhor pessoa, que fazia coisas que importassem, que estava a crescer ou a evoluir intelectualmente. Sentia-me desmotivado, estagnado, e gordo.

Foi no início desse ano, na madrugada de dia 1, que decidi deixar de fumar. De certa maneira, essa decisão, além de motivada pelo aspecto de saúde, foi também uma maneira de reclamar algum controlo sobre a minha vida. Ou, pelo menos, a ideia de controlo. De conquistar uma adversidade, vencer um desafio difícil, on my own. Claro que o mito do ‘isto só depende de ti’ aplicado a todas as adversidades, é das coisas mais idiotas (e perigosas) que costumamos ouvir, mas neste caso foi uma batalha importante. Passados os meses iniciais, com a vontade de fumar a diminuir, mas reduzido à utilização de dois pares de calças, foi a vez de emagrecer uns quilos. Foi outra pequena vitória, e uma lição importante na maneira de estabelecer e enfrentar desafios, quando tudo parece conspirar contra nós: uma coisa de cada vez.

A gravidez e a ideia – aterradora – de ser pai também deram um foco diferente à minha vida. Um foco que tive de aprender a gerir, com mais e menos sucesso. E, claro, também foi em 2012 que a incrível aventura da paternidade teve início, com tudo o que de espectacular e dramático que isso implica.

Em 2013 também consegui dar outros passos importantes na direcção daquilo que aqui já chamei de “tornar-me uma pessoa menos má“. Criei este blog e senti que voltei a escrever coisas com significado. Consegui inserir rotinas intelectuais no meu dia-a-dia que me fazem acreditar que talvez não me esteja a tornar tão estúpido como às vezes me sinto. Leio à hora de almoço, ouço audiobooks quando vou no carro, levo podcasts quando vou passear os cães; e, antes de adormecer, tenho debates imaginários com bloggers que desprezo. Também consegui acabar a tese com a sensação de que escrevi algo com qualidade, algo que achei que não fosse acontecer. Percebi que, de facto, há alguma verdade naquela história de aprender a gerir melhor o tempo quando se tem menos tempo. Ah, e claro, tenho um filho espectacular, que aqui há umas semanas me começou a receber com os abraços mais fortes do mundo, sempre que nos deixamos de ver por umas horas.

O ano novo traz ainda muitas coisas para resolver e objectivos por alcançar. Ainda não sinto que esteja , nem sei muito bem como é que lá chego. Tenho de recentrar a minha vida profissional, de encontrar um sítio em que queira estar e perceber um caminho por onde queira ir. Tenho de arranjar maneira de inserir rotinas de exercício físico no meu estilo de vida. E quero garantir que continuo a aprender, de forma organizada e sistemática, sem a pressão de prazos e propinas. Também há outras coisas, mas vamos começar por aqui.

E também vos quero desejar, quer sejam pessoas de resoluções, pessoas que não acreditam em resoluções, ou pessoas que, por motivos de conveniência vária, adiam as resoluções até o início do ano seguinte, que tenham um óptimo 2014. Vemo-nos por aí!

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8 Comments

  1. Bom ano,
    Tenho-me divertido imenso com estes textos, não só por serem realmente divertidos, mas por encontrar imensos pontos em comum:
    1) Tive o meu primeiro filho em meados de Outubro de 2012
    2) Entreguei a minha tese em Setembro de 2013.
    Afinal são só dois! Mas acho piada quer seja em Lisboa ou no Porto, as crianças, os avós e já agora os pais http://www.apaisana.com/2013/04/17/6-fenomenos-que-aparecem-quando-se-e-pai-e-a-maneira-como-afectam-os-outros/ temos coisas tão parecidas.

    Por gostar tanto de ler estes textos, e pelos vistos para me tornar uma pessoa menos má aceitei o desafio de um colega meu para participar num blogue. Espero ter uma escrita tão boa como a daqui deste tasco para conseguir cativar os leitores.

    Abraço e continuação de bom ano

    • Muito obrigado, Ricardo. É sempre recompensador saber que consigo chegar a pessoas com “comprimentos de onda” semelhantes ao meu, de certa maneira, também é um desafio. = )

      Já espreitei o blog, gostei muito da premissa e do que fui lendo, vou seguir.

      boa sorte e bom ano, abraço!

      ps – E obrigado por não me pores no meu devido lugar explicitando que a tua tese era de Doutoramento – respect. 8)

  2. Isto é que é uma retrospectiva! Bem melhor que as revistas do ano do FB.

    Já estava com saudades deste blog.
    Eu era daquelas leitoras coladas e que lia posts antigos e os partilhava no fb e tudo e tudo. Com o nascimento do 2º e início de novo projecto profissional o tempo diminuiu. A ver se agora, que o miúdo já dorme a noite toda, me ponho a par, já que me faz muito bem ler o blog.

    • Só bons projectos! E obrigado, Andreia, ainda não sei bem quais são as resoluções do à Paisana para 2014 (está quase a fazer um ano) mas esperamos continuar a corresponder. 🙂

  3. Foi um ano em cheio!! Parabéns!! 🙂
    E no meio disso tudo ainda tiveste um tempinho para escrever excelentes textos e partilhá-los connosco!
    OBRIGADA! 🙂
    Bom ano para todos, em especial para o Mexicano! 😉

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  1. Chá e cigarros | Senhoras da nossa idade

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