No Kidding – Proibir crianças em hotéis ou restaurantes (por mim tudo bem)

O João Miguel Tavares, lançou uma polémica, a partir de um post da Pipoca Mais Doce, sobre a questão dos hotéis poderem recusar, ou proibir, a entrada a crianças. Para o João Miguel Tavares, e o que parece ser a maioria inflamada dos seus leitores, negar a entrada de crianças num hotel pode ser uma ofensa contra os Direitos Humanos / Constitucionais, a santidade da família, ou a prova de que vivemos num mundo de gente egoísta.

Eu achava que isto não seria um assunto muito polémico, parece-me natural que o dono de um estabelecimento privado na área de hotelaria possa decidir que o seu “produto” não é destinado a crianças, sobretudo num mercado dominado pela oferta familiar, mas pelos vistos isso está longe de ser o entendimento comum. Aparentemente até a lei portuguesa o proíbe. Legalidades à parte, a discussão é interessante, e há uma série de argumentos a circular, vamos focarmo-nos nalguns deles.

Um hotel decidir que crianças não entram é:

#1 –  Discriminação inconstitucional

No primeiro post sobre o assunto o JMT começa logo a abrir com “acho mal negar a entrada a crianças, como acho mal negar a velhos, a negros, a amarelos, a ciganos, a paraplégicos, a homossexuais ou a transsexuais”.

Eu acho mal esta comparação, porque são planos de discriminação completamente diferentes, mas é claro que, se há um direito fundamental, é uma pessoa poder achar mal o que quiser. Uma diferença essencial quando se comparam crianças com adultos: as crianças não são tratadas pela sociedade como cidadãos de plenos direitos. Em certos aspectos gozam até de mais protecção do que um adulto (não é responsabilizada pelos seus actos, por exemplo), noutros não usufrui da liberdade destes. Não é por acaso que existe uma carta para os direitos da criança, que é diferente da carta dos direitos do homem.

As crianças não podem guiar, não podem comprar tabaco, não podem beber álcool, não podem escolher com que pai querem viver (até certa idade), entre muitos outro condicionantes, alguns para proteger a criança, outros para proteger os adultos das crianças. É quando se diz que todas as proibições são para proteger os menores… de que é que um miúdo de 15 anos é protegido quando não o deixam votar? Da sua imaturidade? Existe uma discriminação quotidiana em função do conceito de maioridade, e não conheço nenhum artigo na Constituição que o proíba.

#2 – Discriminação inadmissível

E isto leva-nos a outro ponto, quando dizemos que somos simplesmente contra o acto de discriminar. A discriminação é um elemento constante no funcionamento de uma economia de mercado, e estamos a falar do funcionamento de um mercado específico (hoteleiro). O preço é um factor de discriminação que eu posso usar para certos segmentos de mercado não terem acesso ao que eu produzo. O mesmo se pode dizer do local onde abro uma loja, ou quando crio um clube só acessível a “sócios”. A grande maioria dos empresários, excepto em sectores “especiais” (água, energia, etc.), pode discriminar em função do segmento de mercado que quer atingir – porque é que os hotéis não o podem fazer?

Além de que a discriminação em função da idade é uma prática comum e aceite pela sociedade. Eu não posso, ou pelo menos não deveria poder, ir com um grupo de amigos para um parque infantil andar de baloiço e beber cerveja. Como também imagino que não seja permitido a tipos de 40 anos irem para aquelas matinés de discoteca para adolescentes.

#3 – Ilegal porque os hotéis prestam um serviço público.

Esta afirmação é bastante discutível, mas se este é um dos grandes argumentos contra a proibição, é fácil de resolver: basta que se crie uma regra que estipule que, havendo x alternativas hoteleiras num raio de 10 (20?) km, um hotel é livre de negar o acesso a menores de idade – porque está garantida a existência de alternativas. Ou isso ou o Governo fazer uma série de Hotéis Estatais, para garantir que nenhuma família passe férias ao relento, mas acho que isso ninguém quer.

#4 – Diferente de o fazer em bares, discotecas ou bares de strip porque são locais de práticas para adultos.

Em que é que exactamente as discotecas são diferentes de um hotel? Por venderem álcool? Por passarem música? Por terem pessoas a fazer figuras idiotas? A proibição de uma criança entrar numa discoteca é uma salvaguarda tanto para a criança como para a tranquilidade dos adultos, e a experiência que estes espaços vendem.

Mais, já estive em ouvi falar de hotéis onde o conceito de férias era receber hordas de solteiros que passavam os dias na piscina a enfrascarem-se no bar aberto, ouvir música aos altos berros, e a celebrarem o amor livre pelas piscinas e praias do estabelecimento. Qual a diferença? Não seria legítimo que um hotel que apostasse neste tipo de oferta, negasse o acesso a crianças (há centenas que o fazem, no mundo inteiro)? Aliás, não seria melhor para todos? E se um hotel destes pode, porque não pode qualquer outro?

Ou vamos proibir que existam hotéis onde o conceito seja farra 24 horas por dia? Se calhar é melhor, pensem nas criancinhas!

#5 – É profundamente egoísta

Este argumento é mais subjectivo, e até tem alguma sensibilidade, mas, lendo alguns dos comentários, na boca de certas pessoas parece que ganha uns tons de mesquinhez. Porque ele assenta neste raciocínio: “nos dez hotéis que há naquela zona, há um que pertence a um tipo que não quer crianças no hotel dele, que é frequentado por pessoas que não querem encontrar crianças no hotel onde escolheram passar férias, e é precisamente para esse hotel que eu quero levar os meus seis filhos, e os meus filhos vão correr, saltar, brincar e fazer barulho nas zonas comuns, porque é isso que as crianças fazem, e é isso que as pessoas têm de perceber – o único sítio onde podem estar livres das minhas crianças é na casa delas. Ou em discotecas. Por enquanto, porque há discotecas que têm espaços ao ar livre, pistas de karts e festas da espuma, coisas que eu acho que os miúdos iam adorar, portanto essa discriminação também tem de acabar.”

ml;nl (muito longo; não li): a sociedade já discrimina menores de 18 anos (ou de 16, 12, 6, o que seja) de várias maneiras, e, havendo limites e regras sobre as possibilidades dessa discriminação, num mercado tão diversificado como o da hotelaria e restauração, não há nenhum razão lógica para não o permitir.

Não podemos deixar que se fiquem a rir
É que não podemos deixar que estas pessoas se fiquem a rir.

 

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11 Comments

  1. Quando os meus pais estiveram nos states, ia a minha mãe grávida, estiveram inicialmente num apartamento do qual tiveram de sair porque o complexo era “child and pet free”.

  2. Tendo em conta que não será uma criança a querer ir alojar-se sozinha nesse dado hotel, este “ban” é para os pais e vai daí, concordo contigo. O caso muda de figura quando uma criança se dirigir sozinha a um balcão de recepção e lhe for negada a entrada ou o estatuto de hóspede, até porque nesse caso se trata possivelmente de um anão e estaremos a tratar de outro tipo de confusões.

    Num universo cada vez mais infantocêntrico em que o mercado à volta de bebés e crianças é explorado ao limite, aquilo que é basicamente uma estratégia de marketing dissonante a explorar uma variante do mercado não devia merecer grande atenção extra.

    Sem querer estar a concorrer para o campeonato de exemplos paralelos mirabolantes, continuamos a ter colégios exclusivamente femininos ou masculinos, sem que haja grande debate sobre se essa discriminação em termos de ensino social ainda faz ou não sentido.

    • Sempre a arranjar confusões. 🙂 É interessante que haja pessoas que aleguem que, ao contrário de infantocentria, começa mesmo é a haver ‘pedofobia’, também não concordo. Quanto muito há menos estigma em não gostar muito de crianças. Também acho cada vez mais que o complexo infanto-juvenil só rivaliza com o complexo militar-industrial em termos de domínio mundial.

  3. Apesar de a minha primeira reaccao ter sido “coitadinha da minha filha agora nao a posso levar onde eu quiser” depois de me esbofetear percebi que concordo que haja hoteis que nao permitam a entrada de crianças. Os putos fazem imenso barulho e sao uns chatos do caracas. Ninguem merece ter de ouvir os dos outros.

  4. Acho que não comentei o tema no Pais de Quatro, mas agora apetece-me comentar…

    1 – Eu e o meu marido praticamente não levamos os nossos 3 filhos a lado nenhum, pelo que sou levada a pensar que os hotéis, sejam ou não dirigidos a famílias com crianças, é que ficam a perder (euros)…

    2 – Sou professora do 1º Ciclo e não me importava de trabalhar numa escola em que pudesse escolher as crianças pelo fator “boa educação” (dispenso o dinheiro e os canudos dos pais)…

  5. Estou impressionadíssima com o poder que uma pessoa que se autodenomina “Pipoca Mais Doce” tem. Eu, como tostamista que sou, não tenho poder absolutamente nenhum.

    Ah, e queria saber se o hotel em que estiveste, o que recebe “hordas de solteiros”, permite a entrada a mulheres ou se lá se celebra “o amor livre pelas piscinas e praias do estabelecimento” apenas entre machos?

    • ahahahah, não havia nada de errado se fosse, mas foi só a frase que ficou pouco inclusiva. No caso concreto eram solteiros e solteiras, ou então solteir@s, suponho, mas talvez javardos e javardas, consoante a perspectiva.

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