Post Oficial de Carnaval

Quando tinha 5 anos mascarei-me de stormtrooper. Na altura não sabia que os maus da Guerra das Estrelas se chamavam stormtroopers, nem nunca tinha reparado que tinham pior pontaria que um guarda-republicano a seguir ao almoço. Pareceu-me uma boa opção porque tinha recebido, no Natal, uma pistola que disparava raios laser – fazia barulhos e acendia luzes. A minha avó, com muito amor e perícia, costurou um uniforme de stormtrooper a partir de um fato de treino, e o capacete era uma caraça (um tipo de máscara com elásticos que se estavam sempre a partir ).

Ao pé de mim estes tipos pareciam profissionais.
Ao pé de mim estes tipos parecem profissionais.

Tenho a ideia que a caraça não era de stormtrooper, nem tinha nada a ver com Star Wars, mas não tenho a certeza e a família diz que não comenta. No fundo, era um miúdo com uma mascára de robô, um fato de treino branco com apontamentos pretos cozidos, e uma pistola cinzenta que fazia pew-pew. Havia tanto em mim de realismo stormtrooper como diálogos com qualidade nos filmes da Guerra das Estrelas que saíram entre 1999 e 2005.

29 anos depois, chegado o primeiro Carnaval em que o Mexicano se vai mascarar, cheguei a pensar numa máscara de Yoda – o verde e diminuto mestre Jedi dos filmes. No entanto, o bom senso (a Ana) ditou que ele se devia mascarar de algo que reconhecesse. E, como acontece em milhões de outras casas, o rato Mickey é a personagem que já encontrou lugar no imaginário da criança residente. Mesmo que tentemos limitar as sessões de televisão a pouco tempo seguido, basta passar o genérico da série que o Mexicano fica completamente siderado. Há, realmente, qualquer coisa de especial sobre o Mickey Mouse. Por acaso está estudada e relacionada com um fenómeno chamado neotenia, podem ler um artigo muito interessante do Stephen J. Gould sobre este assunto e a evolução do Mickey Mouse – aqui.

Revelação chocante: o Mickey original era um idiota.
Revelação : o Mickey original era um filho da mãe.

A partir do momento em que decidimos que ele se ia mascarar de Mickey, eu e a Ana entrámos em modo temos de tratar disso. O modo temos de tratar disso é um fenómeno comum em lares partilhados por dois desorganizados domésticos, e consiste nos seguintes passos: identificar o problema (‘precisamos de lhe arranjar uma máscara para levar para a escola’), encontrar uma solução para o problema (‘vamos mascará-lo de Mickey’) e ir adiando a resolução do problema sem que ninguém se chegue à frente (temos de tratar disso’). Isto decorre ao longo de várias semanas e tanto se aplica a máscaras de Carnaval como lâmpadas fundidas ou escassez de molas da roupa.

A poucas semanas do Carnaval enchi-me de sentido de responsabilidade e fui à Loja da Disney ver se havia fatos do Mickey. Na realidade, tivémos uma discussão sobre quem é que trabalhava mais perto de uma Disney Store – e eu perdi, por isso é que fui. Na Disney Store havia vários fatos do Mickey que, ao contrário da minha vestimenta de pseudo-stormtrooper, eram tão oficiais que aposto que logo após saírem da linha de produção da fábrica da Disney são esfregados na própria cabeça congelada do Walt Disney.

Lenda urbana? Não me parece...
Lenda urbana? Não me parece…

Claro que a oficialidade tem um preço. Neste caso a etiqueta assinalava 49.00€ / 25.00£, o que quer dizer que nada mudou desde o Tratado de Methuen – os ingleses continuam a lixar Portugal. Quando cheguei a casa disse à Ana que aquele preço não fazia sentido e o melhor seria arranjar um fato de Mickey mais barato através da Internet. Concordámos que tínhamos de tratar disso.

A poucos dias do Carnaval estava de volta ao Colombo. Felizmente os fatos do Mickey da Disney Store já tinham esgotado, o que me poupou a chatice de ter de ceder e comprometer os meus princípios éticos sobre a ganância mercantilista. Enquanto andava a ver o que sobrava dos fatos de Série B do Toys R’ Us e do Continente, vi que havia umas embalagens só com orelhas de Mickey. Nesse momento ocorreu-me que não havia grande complexidade em criar uma máscara de Mickey: camisola e collants azuis escuros (não há roupa preta para crianças, acho que é ilegal), uns calções vermelhos, umas pantufas amarelas, e está feito. Talvez até uma cauda, se estivéssemos para aí virados. Parecia-nos um excelente plano, decidimos que íamos tratar disso.

Quando se fazem fatos em casa, nada pode correr mal.
O que pode correr mal quando se fazem fatos em casa?

Claro que a poucas horas da sexta-feira de Carnaval na escola só tínhamos um par de orelhas do rato mickey. Já sem forças para ir a um centro comercial, restava-nos os fatos de Série Z da loja chinesa perto de casa. Confesso que ainda não tinha considerado um fato genérico de Mickey Mouse. Nas minhas deambulações pelo Colombo já tinha encontrado um ou outro fato de Mickey genérico, mas dei por mim a achar que o miúdo poderia ficar triste quando percebesse que os pais nem um fato de Mickey verdadeiro lhe conseguiram comprar. Agora aqui estávamos, na loja dos chineses, a nossa última esperança, a olhar para aquele que era a nossa última opção, e, sem dúvida, o fato mais alucinado de todos:

Parece ter sidoi claramente feito de memória por algum chinês preso numa cave osbcura]
O que acontece quando alguém reproduz um fato a partir de uma descrição de outro alguém que só viu o original uma vez.

É nestas alturas que uma pessoa percebe que se está a aproximar daquele precipício onde os adultos procuram a validação das suas próprias inseguranças (ou vaidades) através das crianças. Depois dá-se um passo atrás e faz-se do fato do chinês a máscara  mais entusiasmante de Mickey da história de todos os carnavais. Passado umas horas recebe-se um e-mail da escola com uma fotografia de um “Mickey” sorridente, e a informação de que esteve a manhã toda a rir, em correrias felizes com as suas orelhas de rato e laço apalhaçado.

E aí lembrei-me que há 29 anos atrás também eu passei toda uma manhã a correr por corredores de naves espaciais e a combater jedis rebeldes. Cheguei até liderar um batalhão de forças imperiais, sem divisas ou pistolas oficias, não interessava. A partir do momento em que vesti aquele fato, eu era um stormtrooper. E a partir do momento em que cheguei à escola e disse aos outros miúdos que era um stormtrooper, eu fui um stormtrooper durante todo esse dia. Acho que o mais importante do Carnaval é isso mesmo: sabermo-nos divertir e viver a fantasia.

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10 Comments

  1. Adorei este post 😀

    O meu priminho de 2 anos também adora o mickey, mas até agora achava que era uma coisa dele, aquele miúdo gostar muito do mickey e ficar completamente vidrado a olhar para aos bonecos do mickey na tv. Afinal não é do miúdo, é do mickey em si.

    Os pais dele este carnaval mascaram-no de índio, e foi um erro: ele não sabe o que é um índio, porque não tem nenhum livro de histórias com índios. Os pais perceberam que mais valia mascará-lo de alguma coisa que ele goste e conheça.

    • Obrigado 🙂 Fui à procura dos tais cartoons primordiais deste “Mickey sacana” que ainda não tinha cara de bebé, e, sendo a internet, já alguém tinha feito um gif animado!

    • Também era escusado chamar-me “velho”.

      ps – Mas já que citação original se referia ao Mace Windu, ok… 🙂

  2. De qualquer maneira, ele não se vai lembrar ainda deste Carnaval quando for adulto. Tanto podias mascará-lo de colher de pau como de stormtrooper a seria que lhe seria mais ou menos indiferente. Quando ele te começar a pedir disfarces específicos, aí sim, vais ter de tratar disso 🙂

    • É verdade que o ‘campeonato’ depois vai mudar bastante, mas já é completamente diferente por-lhe as orelhas e dizer “o Mexicano tem as orelhas do Mickey, o Mexicano é o Mickey!”, e ele rir muito porque sabe perfeitamente quem é o Mickey; do que dizer “o Mexicano é uma colher de pau! agora vamos mexer o molho”. 🙂

      Acho que não seria bem a mesma coisa, mas é verdade que não o mascarei de colher de pau e não anotei a reacção, portanto é uma suposição muito pouco científica.

  3. Por favor enviem me uma foto dele com o fato. Tenho de ver isso. Eu pensei mascarar a Amália de tiago mas deu me preguiça de ir comprar uns óculos de massa e uma camisa aos quadrados e desisti. Para o ano.

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