O drama do drama dos meninos stressados

Houve exames do 4º ano do ensino básico, a minha antiga 4ª classe. Foi uma tragédia. Apareceram uns doutores em psicologia e uns especialistas em educação (mas não somos todos especialistas em educação e doutores em psicologia?) a dizer que isso stressava os meninos e os angustiava.

Tremi! Não sei o suficiente para ter uma posição definitiva e fechada sobre a necessidade de haver exames ou sobre as vantagens de eles não existirem. Mas sei o suficiente para saber que as escolas devem preparar as crianças para a vida.

É assim que começa o artigo de opinião de Henrique Monteiro sobre as provas nacionais do 4º ano que se realizaram na semana passada. Henrique Monteiro, antigo director do Expresso, actual administrador do Grupo Impresa e director coordenador editorial para as novas plataformas. Novas plataformas = futuro do jornalismo? Futuro do jornalismo = Henrique Monteiro? Henrique Monteiro = ?

Henrique Monteiro tremeu e indignou-se com o “drama dos meninos stressados”. E não foi o único. Quando um governo anuncia a introdução de provas nacionais no 4º ano, que implicaram a introdução de um aparato logístico confuso que afectou o quotidiano de milhares de famílias, e até a assinatura de um compromisso de honra infantil, é expectável que as pessoas tremam e se indignem. Mas porque tremem as pessoas?

Primeiro surge a questão da assinatura do papel. Pode, deve, obriga-se, uma criança de nove anos a assinar um papel a dizer que se compromete a não utilizar cábulas pela sua honra? Não deve vir grande mal ao mundo. Mas precisamos mesmo do papel? Qual é o significado deste papel? Também é um teste? Um teste para confrontar crianças com o conceito de honra? E se um miúdo atirar uma cadeira contra o professor e justificar-se dizendo que “não assinei nenhum papel a dizer que não se podia atirar cadeiras”. Pode ser?

Depois, houve ali um breve momento de razoabilidade mental, em que alguém questionou os exames enquanto elemento pedagógico. Talvez agora se discuta o que sabemos actualmente sobre a contribuição dos exames para a qualidade do ensino, pensámos. Errado. A partir do momento em que algum maluco se lembrou de acrescentar “e as crianças vão ficar tão ansiosas, credo, temos de as proteger”, ficou lançado mais um debate educativo em Portugal. E esse debate não tem nada a ver com exames, pedagogia, modelos de autonomia da escola ou o papel do professor na sociedade. Tem a ver com apontar o dedo a professores, aos pais ou aos próprios alunos, simultanemente parasitas e vítimas do tal “ruído idiota” provocado por “doutores em psicologia” e “especialistas de educação”, como entende Henrique Monteiro.

Claro que a questão da ansiedade nas crianças é um tema interessante. Mas a partir do momento em que fica descontextualizada, a discussão sobre o assunto original – os exames – perde a relevância. Qualquer ex-criança sabe que é impossível impedir a exposição de uma criança à ansiedade. A ansiedade faz parte da infância. Não haver a marca preferida de leite com chocolate pode ser uma fonte de ansiedade. Ter de marcar um gordo que esteja sempre a suar num jogo de futebol pode ser uma fonte de ansiedade. Não há muito a fazer, miúdos serão miúdos, e a ansiedade faz parte disso. Agora, quando resolvemos pôr uma criança num contexto de ansiedade, como uma prova nacional de duas horas numa escola estranha, temos de justificar essa ansiedade. Temos de a justificar perante os pais, perante a sociedade e, sobretudo, as crianças. A justificação pode ser a ideia de que o aluno vai aprender melhor, de que vamos passar a formar pessoas mais competentes ou até que o trauma vai ser tão grande que eles vão desenvolver superpoderes. Já valorizar a ansiedade pela ansiedade – o clássico eles têm de aprender o que é a vida – parece um argumento ao nível intelectual de um presidente de uma comissão de praxes.

É que o verdadeiro drama é parecer impossível discutir como é que as provas nacionais vão melhorar o ensino de Português e Matemática no 4º ano? Ou até o que se quer dos primeiros quatro anos da escola? Ou da escola?

A bandeira do Rigor contra o Eduquês by Nuno Crato tornou ainda mais difícil a discussão sobre o ensino em Portugal. Ser contra os exames torna-se ser contra o rigor. Questionar provas nacionais de avaliação passam a ser delírios de especialistas de educação e psicólogos de pacotilha. Falar de teorias ou modelos de educação alternativos passa a ser conversa de esquerdalha. O próprio Henrique Monteiro não se preocupa muito em explicar se acha que existem bons especialistas de educação ou doutores em psicologia, no fundo, vai tudo dar à pergunta que faz: “não somos todos especialistas?”; ele, pelo menos, parece achar que é, o que diz muito da educação e da concepção de ciência que terá sido aprendida pelo Henrique Monteiro.

Eu também não tenho uma posição definitiva e fechada sobre os exames, mas gostava que o debate público fosse mais sobre a necessidade de repensar a escola, do que estar a acusar os professores, culpar os pais ou relembrar com carinho uma escola antiga que está caduca e obsoleta. Prefiro discutir se queremos seguir o modelo finlandês, onde as escolas têm autonomia para decidir o que ensinam, os professores têm um estatuto social parecido com o dos médicos e os primeiros exames acontecem no Secundário; ou o de Hong Kong, que tem um sistema de ensino focado em exames, provas e rigor.

“Mas Portugal não é a Finlândia”. Claro que não é. Mas acham que sempre que um finlandês diz que gostava de ter auto-estradas melhores, aparece outro que diz “esquece isso, a Finlândia não é Portugal”. Também acho que não. E os pais têm de ter um papel importante na definição da nova escola. Mas enquanto estiverem entretidos a discutir as suas próprias inseguranças e a acusar alunos e professores de serem os piores de sempre, não vamos a lado nenhum.

Quem tiver tempo, e gostar de pensar sobre estas coisas, recomendo este e-book (gratuito) do Seth Godin, sobre a necessidade reinventar a escola. O Seth Godin é mais marketing, mas no fundo diz, de uma forma mais clara e estruturada, o que vários doutores em educação têm andado a dizer, no fundo, que temos de começar de novo. Criar uma nova escola. Um novo tipo de alunos. Novos professores. Coisas deste género:

Culture changes to match the economy, not the other way around. The economy needed an institution that would churn out compliant workers, so we built it. Factories didn’t happen because there were schools; schools  happened because there were factories. The reason so many people grow up to look for a job is that the economy has needed people who would grow up to look for a job. Jobs were invented before workers were invented. In the post-job universe, workers aren’t really what we need more of, but schools remain focused on yesterday’s needs.

ou

When we teach a child to love to learn, the amount of learning will become limitless. When we teach a child to deal with a changing world, she will never become obsolete. When we are brave enough to teach a child to question authority, even ours, we insulate ourselves from those who would use their authority to work against each of us.

Livro completo – Stop Stealing Dreams: What is School For? – Seth Godin.

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4 Comments

  1. Eu acho que esta é a velha discussão “porque se eu fiz e não me fez mal, aos putos também não vai fazer” … Argumentar com pessoas (como o meu pai) que usam este (único) argumento para discutir é o mesmo que perguntar a uma criança porque é que gosta de gelado – é estúpido, não nos leva a lado nenhum e não acrescenta valor nenhum à conversa.

    Eu estou a estudar educação – não seja por isso que me considere especialista na matéria – e sou totalmente contra estes exames. E o tão badalado “stress” é apenas um argumento, mas um dos fraquinhos na minha opinião. Estes exames não acrescentam nada de conhecimento às crianças que os fazem … elas já têm o percurso escolar repleto de exames, porquê avalia-las no 4º ano, com aquela formalidade toda quase como se fossem fazer a comunhão?

    Bem, mas isto é uma discussão que leva muito tempo, coisa que não tenho, que os exames estão a apertar e eu se quero ir para o desemprego, tenho de estudar.

  2. Da minha 4ª classe eu não me lembro de ter feito exame ou de ser um stress, recordo-me de que na 4ª classe levar umas valentes, e eram muito duras, reguadas, mas, mesmo assim, continuar a idolatrar e amar a professora! Enfim, lembro-me também do meu irmão ter feito o exame, em Angola, da 2ª classe e de eu ter dito ao meu pai”…se Deus quiser, o … chumba e eu fico com ele na mesma classe!” Graças a Deus ele passou! Este episódio serviu apenas para des-mitificar o trauma dos exames!
    O meu irmão e eu hoje em dia ,com estudos, famílias, e percursos totalmente diferentes, somos pessoas instruídas, trabalhadoras, honestas, … mas acima de tudo, valorizamos e respeitamos a família, e em seguida quem nos informou e de alguma maneira nos instruiu e depois…!
    Hoje ao sair da minha aula de natação ouvi o professor que acompanhava um grupo de alunos (5 miudos/as) cá fora dar-lhes uma “ensaboadela”, pois apesar de terem natação paga, acompanhamento de professor e
    transporte garantido tinham-se esquecido do fato de banho!!!
    Valores como, família, respeito, deveres/direitos, amor, solidariedade… são a base da pirâmide!!!
    Sabedoria, calculo, status, ordenados,governos e afins….são efémeros.
    Infelizmente hoje em dia está tudo deturpado! e não é pelo psicologo ou é por causa deste ou de outro ministro ou governo!

  3. Olá André. Não sei se ainda lês comentários a posts antigos do teu próprio blog (ehehe). Só para dizer que vim parar a este pelo link no post que estava na lista dos mais lidos a desancar o JMT. Ambos excelentes (os posts) e por causa deste já adicionei o Seth’s site aqui no meu novo telefone esperto.
    Presumo (com muita água benta) que provavelmente tens mais que fazer na vida que andar a escrever estes textos de autêntico serviço público.
    Faço figas que porventura encontres um espaço de comunicação (pago? Que seria totalmente merecido) para continuares a escrever sobre parentalidade. Eu pagaria para te ler.
    Talento para a argumentação totalmente desperdiçado se não puder ser lido por quem queira.
    Boa sorte para a vida e felicidades para família! (eu sei, é creepy desejar isto a um desconhecido na net, mas espero que não te importes).

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