Sobre a importância de dormir a sesta no pré-escolar

Muito oportuno este alerta da Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP) sobre a importância das sestas nas idades pré-escolares (menos de 5/6 anos), e o facto das crianças a partir dos 3 anos deixarem de poder fazer sesta nos jardins de infância do ensino pré-escolar público.

Mas não acontece só nas escolas públicas. Cá em casa, a questão das sestas foi sempre um dos argumentos (entre outros) a favor de “aguentarmos” mais uns tempos com eles na creche / jardim de infância onde andam (uma IPSS), mas ao passar para a sala dos quatro anos descobrimos que o Mexicano ia deixar de fazer sestas. Ao início ficámos um pouco atordoados com uma argumentação que misturava argumentos como “a maioria das crianças desta sala já não precisa” e “temos de cumprir as horas mínimas de programa estipuladas pelo Ministério da Educação”, pelo que decidimos esperar para ver como iria correr.

chapéu de caranguejo
Mesmo não concordando com a argumentação.

Embora ele já não precisasse de dormir sestas todos os dias, passado duas semanas de escola tornou-se evidente que o facto de nunca dormir sesta era um desgaste brutal. Chegava a casa ora num estado quase vegetativo ou de irritação miserável (se adormecesse no carro), e dava mais de vinte berros antes de entrar no banho (ao contrário dos habituais três ou quatro).

À medida que íamos aprofundando(e comprovando) leituras sobre os efeitos nefastos da privação do sono no desenvolvimento de uma criança, íamos debatendo uma possível resolução da questão. Lembro-me de exclamar várias vezes “isto não pode continuar assim”, ao que a Ana, concordando, respondia sempre “mas o que sugeres que façamos? tirá-lo da escola? obrigar o resto da turma a dormir com ele? dizer-lhe que vai passar a dormir com os “bebés?”. E eu,

Claro que na parte mais difícil eu ainda não tinha pensado.

Até que me ocorreu a decisão mais óbvia: colocar o processo de decisão na pessoa mais sábia e equipada para resolver este assunto:

Oops, imagem errada. Era este:

Perguntamos-lhe “o pai e a mãe acham que tu se calhar gostavas de fazer sesta na escola, importavas-te de ir para uma sala de meninos mais pequenos para dormir?”.

A resposta surgiu imediata e sem hesitações:

“Não”.

A mãe depois tratou do processo negocial com a escola, que não foi suave, pois envolvia um “regime de excepção”, alguma discrição, não fossem outros pais de crianças não “sestadas” também decidirem reivindicar napping rights, e a compra de material que permitisse okupar as salas de miúdos que fazem sestas. Nessa noite fui até à Decathlon para comprar um colchão e um saco cama, e no dia a seguir ele estava pronto para fazer a sesta (ainda que na refunda)

Que fez, e ainda vai fazendo, sempre que lhe apetece.

Independentemente de excepções, escolas que fazem assim ou assado, esperemos que esta barbaridade comece a mudar em breve e que seja possível, para todas as crianças, fazer a sesta, em todos os estabelecimentos do pré-escolar. A logística é complicada? Imagino que alimentar centenas de crianças três vezes por dia também seja, mas não é por isso que as crianças passam fome.

Excepto os que não queiram fazer sesta, claro. Eu era assim. Não obriguem ninguém.

Já agora, sabiam que um adulto em privação de sono pode apresentar valores semelhantes de incapacidade aos da intoxicação pelo álcool? É verdade. E foi por isso que, naquele dia, também comprei um saco-cama e um colchão para mim, e sempre que me apetece vou dormir uma sesta ao gabinete do departamento de recursos humanos no sítio onde trabalho (é o único que dá para fechar os estores).

Não sei é porque não me pagam o ordenado há três meses. Eu perguntava-lhes, mas nenhum deles fala comigo.

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3 Comments

  1. Vivo na Dinamarca, na sala da minha filha (5 anos), instituíram um momento de repouso no início da tarde. Colchões, camas ou afins?? Nada disso, pediram um cobertor para a miudagem se deitar no chão e cobrir, tipo wrap e está a coisa andar…
    Está o chão limpinho e desprovido de sujeira nem por isso…
    Estão os miúdos felizes e bem dispostos quando chegam a casa? Sim!!
    E é (sobretudo por eles) que é bom viver na Dinamarca.

  2. O meu chaparrito fez 9 anos em Abril e dorme a sesta aos fins-de-semana e sempre que vamos a um concerto. Pois se os concertos começam à hora dele se deitar, 21.30.
    Ontem fomos à feira do livro e deitaram-se 45 minutos mais tarde, já não nos apareceu na nossa cama às 7h, quando os fui chamar às 7.30 dormiam ainda ferrados. Ela também, sim, com 12 anos (quase 13), mas são sonos diferentes. A semana passada, por exemplo, dormiu uma sesta de 2 horas (!). Assim, sem mais, num dia de semana, temos ambas a tarde livre à 3feira, almoçámos as duas e ela encostou-se no sofá, pumba. Também já chegou a dizer “também vou dormir para não ter sono à noite” em dias de concerto.
    Hoje é dia de piscina, o dia em que ele chega mais tarde a casa (18h), o dia em que costuma dormitar no sofá antes do jantar.
    Estou a falar de duas crianças saudáveis com 9 e 12 anos.
    Agora imagino os pequeninos 🙁

    Bom trabalho, André, mesmo. Fogo, as parvoíces que uma pessoa tem de passar. Ter de usar tanta energia para defender as crianças nos direitos básicos. Bolas!

  3. Sou um gajo demente que se levanta por vezes às 4 e tal/ 5 e picos da manhã para correr no meio da mata. Tenho a plena noção que tenho muito pouco tempo, antes que os meus filhos tenham a noção para lhes transmitir a noção da real importância das rotinas e hábitos do sono.

    O mais velho (e custa-me muito chamar ‘mais velho’ a um gnomo de dois anos) tem a coisa encarreirada, é regular nos seus sonos e aproveita bem as sestas. Lá chegaremos ao ponto de rotura escolar, deixa ver como correrá. O mais novo tem 1 mês, ele ri-se (mais ou menos) e borra-se na hora de debatermos rotinas, mas lá irá, pouco a pouco, batalha a batalha.
    Espero eu, rezo eu, a divindades diferentes.

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