Ir à reunião semestral de avaliação com a educadora de infância

Este ano fui pela segunda vez a uma reunião semestral de avaliação com a educadora de infância do Mexicano. Estas reuniões são um momento interessante de parentalidade, porque é a primeira vez que lidamos com a ideia do nosso filho estar a ser constantemente observado e avaliado (excepto quando é a avó). Outra razão de serem um momento interessante é irmos à escola num horário em que não convém que ele nos veja.

O ano passado a educadora tinha uma lista cheia de itens como “empilha blocos”, “consegue juntar duas palavras” ou “percebe instruções simples” (que deviam ser os requisitos para trabalhar nas esplanadas portuguesas no Verão), e tinha assinalado aquilo que o Mexi já conseguia fazer. Das cinquenta “funcionalidades” havia quatro ou cinco em que tinha um “não”, e lembro-me de as ter contestado todas perante as explicações ligeiramente enfadadas da educadora de infância sobre “haver ainda muito tempo”.

Este ano não havia lista de itens, mas lá estavam as observações positivas e aquelas “ligeiras dificuldades que são apenas uma questão de tempo”.

Claro que eu sei que o meu filho não é perfeito, eu janto à frente dele todos os dias. Mas é estranho ser confrontado com isso, ainda que por outras palavras.

É como aquela atitude do português que está sempre a criticar o país, mas se lhe aparece um alemão a dizer que somos todos uns preguiçosos é logo uma grande indignação e uma cabeçada à cais do sodré. Excepto ser for um português do governo, aí dá razão ao alemão e ainda se oferece para privatizar uma empresa ou duas.

No geral, a reunião correu bem. A educadora é impecável (a do ano passado também era), e é bom sentir que estas pessoas que passam tanto tempo com o nosso filho gostam genuinamente dele.

E entretanto também percebi algo sobre o trabalho destas pessoas. Apesar de passarem horas a fio a lidar com bandos de pequenos selvagens desregulados com pouco controlo de esfíncter, expostas a várias tipos de doenças e desvios de personalidade, o pior mesmo deve ser ter de lidar os pais. A (enorme) responsabilidade de ter nas mãos o bem-estar de 15 crianças não deve ser nada comparado com o facto de se ter de lidar com as neuroses, traumas e paranóias de 30 adultos.

RESPECT

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9 Comments

  1. Concordo que o mais dificil deve ser lidar com os pais…
    Ainda assim, faz-me imensa confusão “reuniões de avaliação” em creches, com itens do que conseguem ou não fazer.

    • Esqueceram-se das entidades superiores em que essas checlists são obrigatóriad pelo mimistério da educação

      • Sou Educadora de Infância e quero apenas dizer que as “avaliações” não devem ser encaradas como avaliações escolares. Afinal estamos é a falar de desenvolvimento de uma criança e como tal, este varia muito e depende de multiplos factores. Cada criança é diferente e também é preciso respeitar o seu ritmo. A questão é que eu não gosto de ver um pai ou uma mãe chateados ou a fazerem-me frente como se tivesse a atacar o filho deles, quando digo que a criança ainda não desempenha determinada tarefa. Trata-se apenas de um “ponto de situação” e uma reunião também pode ser uma hipotese para criar nossas estratégias. Afinal, se a escola e os pais trabalharem em conjunto, melhor para a criança. Obrigada pelo texto. Gostei muito e concordo com o final. :p lol

    • Agora, um pouco, a sério. Percebo perfeitamente a “confusão”, e até me identifico com essa sensação… sobretudo porque a palavra “avaliação” se relaciona muitas vezes com a tendência (negativa) que permeia todo nosso sistema educativo – ver as avaliações como um fim. Como fazer o secundário com o objectivo de ter boa média, fazer um bom exame, e entrar na universidade.

      Mas, nestes casos é diferente (na minha experiência). A ‘checklist’ aparece sobretudo uma ferramenta auxiliar de observação, uma sistematização prática de informação útil. Sobretudo para detectar (ou despistar) problemas que podem surgir muito cedo. É uma das coisas que espero de profissionais de educação, estarem atentos a sinais que possam indiciar problemas, ou que necessitem de atenção não-histérica ‘extra’ (e as avaliações podem ser muito úteis nesse sentido).

      Claro que o problema é quando a avaliação se torna num fim. E ver pais, ou profissionais, obcecados em “pôr o miúdo a andar antes de fazer um ano”. Acho que isto não é norma, mas não tenho assim tanta certeza.

  2. Como educadora só tenho a agradecer a forma como abordpu o assunto…no entanto só queria reforçar um comentário anterior…a avaliação é obrigatória

  3. não estava a pensar discutir regulações e instruções de entidades superiores, mas parece-me muito bem que seja obrigatório… de que outra maneira saberíamos que os nossos filhos são melhores que os outros?

    😎

  4. As chamadas “avaliações” têm como objectivo o acompanhamento da evolução da criança, tal como, quando vai ao pediatra ele faz medições para perceber essa evolução. É um instrumento que deveria ser acarinhado e compreendido pelos pais, pois existe para os ajudar.

  5. Faz sentido. De facto, acho que acabei por colocar esta avaliação no mesmo saco da sua má utilização e de extrapolar para a questão da escolarização precoce, que é a meu ver uma realidade crescente (em parte por culpa dos pais que querem ver resultados). A forma como essa avaliação é utilizada é que se torna realmente importante e pode realmente ser útil em alguns despistes.
    Já agora aproveito para relatar a minha experiência, que me fez ficar com mais atenta a estas questões (e provavelmente mais reactiva). Numa creche onde esteve o meu filho aconteceram algumas coisas que me fizeram sentir desconfortável relativamente a aquisição de competências. Por exemplo, quando ele tinha 14 meses uma educadora veio falar comigo porque o meu filho não aceitava que lhe dessem o comer com a colher e que só queria comer sozinho com as mãos. Não sendo ele um grande comilão, reparei que começou a comer melhor conforme lhe dava essa liberdade de explorar a comida. No fundo, ao deixá-lo em paz ele tinha curiosidade e comia melhor. Pediram-me que estimulasse o uso da colher e referiram que todos os outros meninos na sala dele comiam com a colher, fosse dado por uma educadora, fosse sozinhos. Ou seja, ele era o único que comia sozinho com as mãos. Na altura disse-lhe que ele iria acabar por fazê-lo, que não se preocupasse, que era mais fácil por agora ele comer com as mãos e perguntei porque era tão importante que ele comesse com a colher. Ela respondeu-me que tinha receio que ele não reconhecesse a função da colher…e eu fiquei a questionar-me se alguma criança, mais tarde ou mais cedo, não sabe para que serve uma colher. O que aconteceu é que eu continuei a não intervir para que ele usasse a colher em vez das mãos, apenas a deixava pousada no prato como sempre e ele, por imitação apenas, começou cerca de um mês depois a comer sozinho com a colher. Agora não larga a colher e quando não lha dou logo aponta para a gaveta porque lhe falta a ferramenta 🙂
    Isto é apenas um pequeno exemplo de muitas outras coisas que se sucederam e que iam sempre no sentido de tornar os ritmos homogéneos. O discurso teórico era sempre o do respeito pela individualidade da criança, mas na prática sentia sempre essa preocupação em ser uniforme. Parecia que as próprias educadoras se sentiam no dever de que as crianças delas correspondessem a uma série de itens associados a certas etapas (chuchas, fraldas, etc) e percebi ser algo que vinha da direcção.

    Sobre a questão da escolarização precoce (e deixando claro que realmente não tem nada a ver com o propósito dessa avaliação obrigatória) deixo um artigo que, entre outros que alertam para esta questão, me interessou bastante http://www.slate.com/articles/double_x/doublex/2011/03/why_preschool_shouldnt_be_like_school.html?wpsrc=sh_all_dt_tw_bot.
    Gostava imenso de ver isto debatido pelos educadores! Quem sabe o André lance o desafio um dia destes? 🙂

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