5 coisas simultaneamente espectaculares e aterradoras de ser pai

Ser pai muda a nossa vida. Dá um novo significado às coisas.  É uma experiência transformadora. Blá, blá, blá, já ouvimos todos esta conversa. Shut the fuck up, parents. Ok, mas também já ouvimos a mesma coisa de pessoas que vão à Índia e aprendem a limpar o cocó com a mão esquerda e a comer a chamuça com a mão direita. Ou pessoas que fazem actividades radicais.

bungeefail
Ou pessoas que quase fazem actividades radicais.

Porque a verdade é mesmo essa. Ser pai é uma experiência transformadora. Uma experiência profunda. Uma experiência sem retorno (nenhuma maternidade aceita as crianças de volta, eu tentei). Portanto, sim, é uma experiência espectacular, mas tão aterradora como espectacular. Tipo montanha russa. Não tipo montanha russa de feira popular portuguesa, que essas são só aterradoras porque se podem desconjuntar a qualquer momento, mas uma montanha russa daquelas gigantes cheia de emoções e sustos.

fabio montanha russa
Mas sem pombos.

É que cada sensação tem muitas vezes um lado espectacular e outro aterrador, como por exemplo:

#1 – A noção da mortalidade

O espectacular: Aceitar que a morte faz parte da vida.

A morte é um aspecto incontornável (e inevitável) da nossa existência. E pode ser bom, e saudável, aceitar isso. Ter filhos confronta-nos directamente com a ideia de um ciclo da vida, sobretudo quando passamos a estar a meio desse ciclo. Os que estão acima começam a desaparecer, e os que nos vêm substituir acabam de chegar. É um sensação de proporções cósmicas, esta realização de que nós, os nossos pais, os nossos avós, etc., temos todos os dias cada vez mais contados; mas também é um pouco assustadora.

O aterrador: Eu disse mesmo “um pouco assustadora?”

ozymandias
Afinal queria dizer ABSOLUTAMENTE HORRÍFICA.

Um filho é a maneira da natureza nos dizer: “olá, finalmente encontrámos um substituto para carregar os teus genes, agora podes ir morrer longe. Ah ah, mas não tem de ser já” (e, para piorar, na minha cabeça a natureza fala com a voz da Teresa Guilherme). É nesta altura também que percebemos que os Natais deixaram de ser aquela época mágica em que recebíamos presentes e víamos a família toda junta, para passar a ser aquela altura do ano em que olhamos em redor e pensamos “será que esta é a última vez que vou estar com esta pessoa?”.

Sim, sou óptima companhia para festas.
Sim, sou óptima companhia para festas.

#2 – Reviver a infância

O espectacular: Vibrar com a descoberta do mundo

O estágio infantil do ser humano é algo de espectacular (tirando a parte de se borrarem nas cuecas e acordarem de madrugada). As crianças são inocentes, genuínas e intrinsecamente boas. É incrível poder vibrar com esta descoberta de afinal há algo puro e bom na Humanidade, e também com o entusiasmo de ver alguém a descobrir o poder das ideias, das histórias, do mundo que o rodeia. É que também é possível canalizar esse entusiasmo. Quando fomos ao Badoca Park, lembro-me de ficar ansioso ao chegar às girafas, que são dos animais favoritos dele, e de as estar a ver como se fosse pela primeira vez.

Huh... olha filho, o milagre da vida.
Huh… olha, filho, é a lei do mais… alto.

O aterrador: A descoberta do resto da humanidade

Mas depois há a outra parte da infância: saber que as crianças têm o potencial para ser dos seres mais vis e terríveis à face da terra. Imaginar que eles estão entregues a uma lotaria do acaso que vai determinar o tipo de miúdos com que vão conviver na escola é de apertar o coração. Sim, é verdade que a vida também é feita de adversidades, eles têm de aprender, etc… mas isso não quer dizer que tenhamos de antecipar com o entusiasmo o dia em que eles vão descobrir que as pessoas são uma bosta.

A vida é feita de pequenas coisas.
Ou era isto ou uma fotografia da bomba atómica.

#3 – Dar valor à saúde

O espectacular: Ter cuidado com o que fazemos.

Este é um pouco diferente do primeiro ponto porque se foca sobretudo no nosso bem-estar quotidiano. A responsabilidade de ter filhos alerta-nos para ter algum cuidado connosco. De certa forma é uma sensação um pouco egocêntrica, já que se baseia numa espécie de “os meus filhos precisam de mim”, mas é um sentimento forte o suficiente para estar mais atento ao que como, a ter deixado de fumar, não ler blogs que me irritem e outras coisas que fazem de mim uma pessoa mais aborrecida.

Mas é bom ter tempo para reflectir na vida.
Mas é bom ter tempo para reflectir na vida.

O aterrador: Um medo irracional de que me aconteça algo de mal.

Já tive insónias antes de uma viagem grande de carro pela angústia de poder acontecer alguma coisa na estrada (em Portugal não é assim um medo muito irracional). Nunca me tinha acontecido isto. Fui sempre um tipo optimista. Nem quando saltei de bungee jumping no Algarve e senti o arnês a deslizar ligeiramente num dos tornozelos, eu achei que alguma coisa podia correr mal.

E sempre que encontro um anormal a conduzir agressivamente na estrada – como aquela forma de subespécie humana que se cola ao carro da frente na autoestrada, por exemplo – tenho fantasias de o encontrar estacionado na próxima estação de serviço e enfiar-lhe a cabeça, e a sandes de leitão estupidamente cara que comprou no self-service, pelo tablier adentro.

Mente sã em corpo são.
Mente sã em corpo são.

#4 – Ficar menos egoísta

O espectacular: deixei de ser o centro da minha existência

Esta coisa de ter deixado de estar em primeiro lugar, e passar a sentir uma dedicação quase incondicional a pequenas criaturas que tiveram o azar de ficar à minha guarda, é mais eficaz que qualquer credo ou livro de auto-melhoria. Passamos a considerar mudar para uma casa pior para ficar num agrupamento escolar melhor, deixamos o nosso filho comer a perna de frango extra do jantar, e obedecemos sem reserva aos pedidos dele para tirar os Chromeo e pôr antes a música do Ricardo Reis Pinto (que é muito recomendável) a tocar. Desde que não seja Jack Johnson, tudo bem.

Fiz isto noutra vida, mas  acho que continua bem actual.
Fiz isto noutra vida, mas acho que continua bem actual.

O aterrador: não dá para ser tudo ao mesmo tempo

Passei a viver angustiado pela ideia da conciliação dos equilíbrios entre vida profissional, familiar, social e pessoal. É como quando fazemos o nosso personagem num jogo de computador, temos de escolher uns atributos em detrimento de outros. Não é possível ser um profissional empreendedor e dedicado, um amigo leal e presente, uma pessoa que cultive interesses e crescimento pessoal, e um pai presente, tudo ao mesmo tempo. Pelos menos fazendo bem as coisas. Temos de fazer escolhas, fazer sacrifícios, não fazer coisas ou ver pessoas. O Steve Jobs, por exemplo, um génio dos negócios, mas um pai execrável.

Mas o mundo ganhou muito com os sacríficios que ele fez.
No entanto o mundo ganhou muito com os avanços tecnológicos que ele possibilitou.

#5 – Criar um ser humano

O espectacular: vemo-lo a crescer e a tornar-se independente.
A sensação de estarmos a criar um ser humano com vontade, pensamentos e agência própria é incrível. Uma pessoa que vai ter impacto no mundo, por mais insignificante que esse impacto possa ser, e que vai ser diferente de nós (ainda bem). A primeira vez que um filho nos desafia é uma sensação especial – é só a partir da segunda que começa a ser sempre irritante.

Pensar que eles estão no início de um processo de crescimento na direcção de se tornarem seres humanos singulares, é algo assombroso. Vão ter o seu próprio mundo, os seus amigos, o seu terrível gosto musical e, se tudo correr bem, as iniciais na porta da casa.

É como se fosse a fivela de um cinto gigante. Se calhar é uma metáfora.
É como se fosse a fivela de um cinto gigante. Se calhar é uma metáfora.

O aterrador: vemo-lo a crescer e a tornar-se independente

A ideia de que vamos ter de libertar estes pequenos seres que ainda cabem no nosso colo (o Mexicano já me começa a dar cabo da ciática, mas cabe) ao mundo é um pouco angustiante. Saber que vamos deixar de os poder proteger, até chegar ao ponto que eles próprios nos vão pedir para não o fazer. Sim, vamos passar a ter mais tempo livre, mas a noção que esse tempo livre pode ser preenchido por horas de preocupações sobre as horas a que eles vão chegar a casa, não é muito agradável. Ou de não saber sequer a que casa é que eles, eventualmente, hão-de chegar. Saber que a felicidade deles vai passar cada vez menos por nós.

Só de ver o meu filho a brincar sozinho no quarto, é fácil começar a sentir que ele precisa menos de mim. Já percebo a minha mãe quando me diz “que saudades de quando eras pequenino e me cabias no colo”. Percebo-a perfeitamente.

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9 Comments on 5 coisas simultaneamente espectaculares e aterradoras de ser pai

  1. Já costuma ser assustador em separado, agora tudo concentrado… vou só ali buscá-los à escola e agarrá-los até deixarem e já volto

  2. É isto mesmo.
    No próximo mês vamos fazer uma viagem de avião e eu que nunca tive medo de aviões tenho vontade de fugir. O pai não é melhor, já que me respondeu que ao menos vamos os três juntos e que se algo acontecer nenhum de nós sofre (?). 🙂

    • Aahha. Bom, não quero complicar as coisas, mas outro dia a conversa ao jantar com uns amigos foi se, depois de ter filhos, devíamos passar a viajar em aviões separados. 😐 😀

      • Viajar em aviões separados se forem só os pais a viajar, se for a família toda a viajar, mais vale irem juntos – pareceu-me que era esta a ideia. No entanto, quem diz aviões diz automóveis (não há mais mortes devido a acidentes de carro do que de avião?)…

        • Pois, acho que a logica ja não imperava à hora avançada do tal jantar (privação de sono…). De facto, as tantas a conclusão (i)lógica será andar em lados diferentes da rua.

  3. Tão isto, eu ganhei bastante a do medo de me acontecer alguma coisa a mim ou a elas…Medo foi um sentimento que cresceu bastante com a maternidade. Mas também me potenciou a ser uma pessoa melhor e a nunca ter um dia completamente mau. Porque elas estão lá para um abraço e um sorriso sempre 🙂

  4. Fabuloso… Senti-me menos mal por todas as vezes em que tento explicar porque se muda tanto depois de ser mãe/ pai. Porque se essa mudança não for tão avassaladora, tão “tremor de terra cá dento”, pelo menos para mim, não faz sentido.

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