A escolha do nome

Dar um nome a um filho é uma responsabilidade importante. Não tão importante como o património genético que é responsável por decidir se ele vai ter reumático ou se lhe oferecem bebidas à noite, mas não devemos subestimar a importância de um nome.

Escolher um nome até parece um processo relativamente simples. Duas pessoas, centenas de hipóteses. A probabilidade de encontrar um nome de que ambos gostam é grande, certo? Errado. Logo se descobre que a premissa não é encontrar um nome de que ambos gostam, mas sim um nome que ambos não odeiam. Quando se percebe isto torna-se tudo mais fácil.

Um dos bons pontos de partida, se tiverem um tipo de personalidade de gajo chato, como eu, é ir ver o que a ciência diz.

E o que dizem dezenas de estudos e décadas de investigação científica? O que dizem Steve Levitt e Stephen J. Dubner, os autores desse fenómeno da contra-cultura economicista que é o Freakonomics? Dizem que a letra inicial influencia o percurso de vida que fazemos? Que o tamanho do nome está relacionado com a quantidade de batatas que nos servem no McDonald’s?

Não. Preparem-se. Dizem que: nomes esquisitos e com conotações negativas vão influenciar negativamente o percurso social das pessoas.

“Não posso!”

Obrigadinho, ciência.

Posto isto, e sabendo que seria um rapaz, começámos a lançar nomes para cima da mesa, com o único critério de não serem esquisitos. Não demorou muito até descobrirmos que existem uma série de normas e axiomas intra-casal que tinham de ser observados:

Não pode ser um nome de um familiar próximo

Nunca pensei dar o meu nome a um filho – já vou ter que lhe dar tanta coisa, deixem-me ao menos ficar com o meu nome – mas cheguei a ponderar a ideia de darmos o nome de um dos avôs.

Agora, uma pergunta com rasteira: sabem o que significa quando numa conversa sobre nomes aparecem questões como formação da identidade, individualidade e igualdade entre irmãos?

Significa que casaram com uma psicóloga! E no family name for you! (Muito menos de pessoas mortas.)

Não pode ser um nome qualificativo

Numa discussão de realidade alternativa em que teríamos uma menina, a minha mulher mencionou que adora o nome Felicidade Perpétua. Além do argumento da elegância estética, acha que só pode ser um nome que augura coisas boas. A mim parece-me que é pôr demasiada pressão sobre uma pessoa. No fundo, a velha questão determinista – se é a pessoa que faz o nome ou o nome que faz a pessoa.

Lyonce Viiktórya em 2050? Ninguém sabe, mas acho que pode ser uma forte possibilidade.
Lyonce Viiktórya em 2050?

Não pode ser um nome muito popular

Desde que o Tozé Martinho começou a escrever telenovelas, há uma série de nomes – que noutros tempos poderiam ser descritos como nomes de betos ou pessoas que apetece esmurrar no nariz – que se popularizaram de tal maneira, que hoje em dia nem se pode confiar que um Salvador ou um Martim nunca nos assaltariam. Se juntarmos a isto a uma mulher que trabalha com crianças, esqueçam todos os  nomes mais populares.

Não pode ser um nome pouco popular

Obviamente que também não pode ter um nome que não faça parte do socialmente aceitável (v. o que diz a ciência). Portanto Teodoricos e Zebedeus são de evitar.

Não pode ser o nome de ex-namorado/as

Se alguém vos precisa de explicar esta regra talvez seja necessário fazerem a revisão anual do bom senso.

Não pode ser um nome nojento

Não sabia que existiam nomes nojentos, até o dia em que ser “um nome nojento” se torna sinónimo de “não tenho argumentos lógicos para refutar esse nome portanto vou dizer que ele é nojento”.

“E um nome normalíssimo, tipo Pedro?”
“NOJENTO.”

 

Depois de passarmos por este processo chegámos uma shortlist de três nomes:

HENRIQUE

O nome mais neutro de todos. Henrique era a Suiça de todas as discussões: nenhum de nós o odiava, nenhum de nós o amava, estava ali, como último recurso pacificador de três sílabas e fundação da pátria.

[MEXICANO]

Um nome ‘normal’, relativamente fácil de pronunciar para estrangeiros  (é sempre engraçado vê-los a tentar dizer João), duas sílabas, um forte candidato. Só tinha um problema, ser o nome de um dos meus melhores amigos, e, tendo sido a escolha, significa que até ao fim dos dias vou ter de olhar para esta expressão sempre que se falar neste assunto.

E por fim:

TRISTÃO

Sim, Tristão. Eu sei, eu oiço-vos “espera aí, Tristão?!”. Tenho de reconhecer que foi sugestão da Ana. E a minha primeira reacção foi exactamente essa que vocês também estão a ter:

Uuuuuauuuuuu!

Tristão é daqueles nomes feitos da matéria dos épicos. Mesmo em comparação com outros nomes da era da Cavalaria, não encontro semelhante em elegância, força e impacto. Talvez seja a maneira dos t’s rolarem um contra o outro em dupla oclusiva, ou a paisagem da caligrafia, os dois t’s em forma de torre, o til a fazer de nuvem… A verdade é que nem Lancelote nem Percival nem Godofredo, nada chega perto de Tristão.

O problema  de Tristão é que nem toda a gente tem a cultura, o mundo, a gravitas para perceber isto.

Para algumas pessoas – e vocês sabem quem são – Tristão remete apenas para um gajo dos antigos que gostava de uma Isolda, ou, se forem dados a humor revisteiro, uma pessoa que esteja mesmo muito triste.

Como não tenho muita esperança nas pessoas, tive de dizer que não. Por mais que reconhecesse a espectacularidade do nome. E se ele não aguentasse o peso do nome? Se as pessoas passassem a vida a perguntar-lhe se ele tinha visto a Isolda? É muita responsabilidade. No fundo, acho que não há sequer ninguém vivo que aguente o peso do nome Tristão.

bp

Vai-te foder, Brad Pitt.

Ou será que ele é que faria o nome? Raios parta o determinismo.

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31 Comments on A escolha do nome

  1. Tenho pensado muito no determinismo de um nome…
    Por exemplo, a conjuntura actual seria diferente se o primeiro nome do governador do Banco Central do Chipre em funções neste momento não fosse Panicos?

  2. Por cá foi um drama escolher o nome e, hoje, 2 anos e meio depois, o marido ainda não está 100% convencido; apesar de na altura ter gostado.
    O meu filho chama-se Gonçalo e o problema, para o pai, é não ser um nome internacional, porque o “ç” não existe noutras línguas e tra-lá-lá e porque assim o puto vai ter um trabalho dos diabos para explicar o nome cada vez que viajar 😛

  3. A minha filha tem um nome meu, e ainda hoje, depois de 1 ano me questiono onde estava com a cabeça, a culpa é das hormonas, só pode.

  4. Experimenta casar com uma pessoa de outro país, e aos critérios que mencionaste acrescenta-se:

    1) a grafia da outra língua (ex. é esquecer Lourenço e Gonçalo, como já foi referida noutro comentário)
    2) a capacidade de pronunciar sons estranhos que (não) têm os tipos da outra língua (ex. é esquecer Simão, João, Martim, Xavier)
    3) a conotação que, por acaso, têm os nomes no outro país (tipo: Pedro é nome de comunista, Carolina é nome de vaca, etc. – isto no caso de Itália)

    Enfim… uma trabalheira, e ninguém fica com a sua primeira escolha!

  5. Tenho uns amigos com um filho Tristan, que é um dos vários nomes de que gosto em inglês, mas não como soa em português.

    Quanto a Mexicano, lamento informar-te mas não há estrangeiro que alguma vez pronuncie o nome correctamente – tive um colega Mexicano cá. 😉

    • Não é tanto pronunciar em conformidade com o língua de origem (saindo de Lisboa aparecem logo três ou quatro variações), mas sim olhar para nome e conseguir dizê-lo sem hesitar / balbuciar durante vários segundos. =)

      • Sim, nesse caso funciona. Mas por exemplo quando o meu orientador (mesmo do meu amigo) me pediu para o ensinar a dizer umas frases em português na defesa de doutoramento dele, ficou espantadíssimo por perceber que durante mais de 4 anos não sabia como era a pronuncia correcta em português.

        Mas enfim, eu sou Ana e mesmo assim nunca ninguém o pronuncia como nós.

      • E já agora: se já é difícil escolher um nome quando os pais são da mesma nacionalidade, imagina quando são de nacionalidades diferentes. Têm sempre de escolher algo que ambas as famílias consigam pronunciar e que soe parecido em ambas as línguas, o que é quase impossível.

  6. Primeiro comentário no blog, que adoro.

    Um dia que tenha um filho ou uma filha quero apenas que o nome identifique o género em qualquer língua. Viajo muitas vezes a trabalho, em especial para a Ásia, e muitas vezes só comunico com os clientes or e-mail, então quando combinamos reuniões, eles estão sempre à procura/espera de um homem. O meu nome é Filipa e eles confundem muito com Phillip. Agora graças à Pipa Middleton já começa a ser mais conhecido lá fora. Mas um dia que tenha filhos o nome tem de indicar logo o género! Ah e nem pensar em 2 nomes ou muitos apelidos. Eu é que sei o drama que é tentar explicar qual o meu último nome e mesmo assim muitas vezes colocarem um apelido qualquer depois do Ms…Dramas!

    • Ao ler este post foi exactamente isso que pensei. A discórdia cá em casa foi mais acesa quanto ao número de apelidos a usar. Isso sim, deu origem a que a minha sogra ache que tenho algo pessoal contra ela. Nessa luta eu ganhei! Espero que os meus filhos me agradeçam mais tarde não me colocando num lar. Só tem 3 nomes graças a mãe.

    • Pois era. Em relação ao escolhido, parece-me que não achará grande graça ao diminutivo, mas ao nome sim. 🙂

  7. Gosto de tudo o que escreves em geral mas de vez em quando aparece uma frase ou outra que me faz mesmo pensar “Bolas, este sujeito tem mesmo graça…”.
    Desta vez foi “Nunca pensei dar o meu nome a um filho – já vou ter que lhe dar tanta coisa, deixem-me ao menos ficar com o meu nome”… Muito bem visto! Os pais do Júniores deste mundo que pensem nisto.

  8. Concordo que é mesmo muito difícil escolher. A minha primeira filha teve nome aos 8 meses de gravidez, a segunda nasceu e passou a primeira noite ainda sem nome… eu só lhe conseguia chamar Francisca, o nome da irmã 🙂
    Adoro Tristão, mesmo!

  9. Adorei o teu post!

    Realmente acho que um nome determina muita coisa na vida de uma pessoa. Não é por acaso que quando pensas em Afonso ou Francisco pensas num miúdo todo “betinho” que vai estudar para a Universidade e quando pensas em Mara Andreia pensas noutra coisa…isto sem qualquer tipo de descriminação atenção! cada um escolhe o nome que quiser para os seus filhos, mas como a sociedade olha para esses nomes é que já não podem controlar, daí concordar com a teoria do determinismo.

    By the way…Tristão soa muitooooooo melhor em inglês…é pena. É um nome poderoso e fixe como Leonidas (much better in english…basta recordar o filme 300), mas as pessoas não estão preparadas para esse nome, muito menos a criança, parece-me. Eu gosto de Tristão, mas como me faz lembrar um nome que se daria a um dragão de komodo, talvez não fosse a minha primeira opção lol.

    E parabéns pelo filhote. A mim ainda vai demorar a entrar nessas andanças.

  10. O nome Tristão é fantástico! Não fosse aquele til e seria imbatível…
    Também acho que ter um nome facilmente reconhecível pelo menos no mundo anglo-saxónico e sem acentos gráficos é importante . A pronúncia nunca é igual (falo por experiência própria e o meu primeiro nome é dos mais universais que existe; quanto ao apelido, apesar de parecer simples e de muitas vezes eu própria omitir o acento para não gerar confusões, perdi a conta ao número de vezes que fui chamada coisas estranhas) mas pelo menos fica bem escrito.

  11. Adorei o texto, muito bem escrito! Mas tenho que discordar quanto a colocar aos nossos filhos nomes de pessoas que já morreram. Como sabes, a minha filha chama-se Maria de Guadalupe em homenagem à avó paterna que, infelizmente, morreu inesperadamente dois meses antes da neta nascer. Não acho que ter o nome de pessoas que já não estão entre nós assombre o seu novo portador e, por outro lado, evita-se a tentação de escolher o nome por “estar na moda” ou porque “soa bem” ou porque “é o menos mau” quando os pais não estão de acordo. Para além de que, ter o nome de quem já morreu, ajuda a preservar a memória e as lembranças, pois tenho a certeza de que iremos falar muito mais da avó à Maria de Guadalupe, exactamente por ela ter este nome. Cabe-nos a nós, pais, explicarmos as razões que nos levaram a escolher o nome e o significado que a pessoa a quem ele se refere teve nas nossas vidas, eu espero que a minha filha sinta muita honra em ter o nome da avó e veja nela um exemplo a seguir… E não acredito que vá ter menos personalidade ou individualidade por causa disso!
    A herança dos nossos antepassados é claramente subvalorizada nos dias que correm, nós somos quem somos muito por força da família onde nascemos e com quem crescemos. E talvez os filhos percebessem mais os pais que têm se compreendessem melhor o molde em que os pais foram feitos e criados…
    Fica aqui a minha humilde opinião 🙂
    Beijinhos

    • Olá Isabel,
      Claro que um nome não retira nem individualidade nem personalidade a uma pessoa. O que se pode argumentar (psicólogos…) é que pode influenciar a definição da identidade. Sinceramente, não sou nem contra, nem a favor da teoria – eu gosto é de pretextos para por imagens parvas 🙂 – mas acho que, havendo uma carga histórica associada ao nome, vai depender sobretudo da maneira como se estabelece essa relação. E esse, como dizes, é um papel dos pais.

      Dizendo isto, não me parece que a presença ou influência de uma “herança familiar” esteja relacionada com um nome próprio. Eu percebo que se faça a relação, mas ela não significa que o seu oposto seja válido.

      A “herança” é, sobretudo, criada pela educação, narrativa e interação com a família. Se tiveres cinco filhos, quatro deles tiverem os nomes dos avós, e um deles não, isso não quer dizer que esse filho tenha ou sinta menos a herança do que os outros (a não ser que cresça a ouvir o contrário). Da mesma maneira que as pessoas se relacionam de modo diferente com ramos das suas próprias famílias, essa é uma relação que se estabelece sobretudo na prática, no convívio, conversas, afectos, etc. Não nego que a ‘carga’ onomástica possa ser importante, mas não me parece preponderante nessa dimensão de relação com a tradição familiar, muito menos para que os filhos “percebam” os pais. Bjs!

  12. Tenho dois casais amigos em que ambos se chamam Nuno e Raquel e ambos os casais têm um filho chamado Nuno. Imagina a confusão. Não percebo porque é que as pessoas gostam tanto de dar os seus nomes aos filhos. Quanto a nomes históricos, o meu pai chama-se Aquiles, a reação das pessoas nunca foi: Aquiles como o herói de Tróia? é mais: Que nome esquisito… Bem desde que saiu o filme Tróia se calhar as pessoas já conecem mais um bocadinho.

  13. No caso da primeira filha, também fui apanhada de surpresa com a dificuldade em chegar a consenso. Pensava que ia ser fácil, mas não foi, de todo. Acabou por ficar com um nome que eu em pequena detestava, mas com o qual me reconciliei há uns anos. O nome da segunda foi escolhido num sonho:

    http://alheiaatudooutalveznao.blogspot.pt/2013/05/sonhos-4.html

    O rapaz ficou com um nome que eu sugeri na primeira gravidez, antes de saber que era menina, e que o pai adorou, não esqueceu e insistiu que fosse para o primeiro rapaz (porque eu já não estava muito convencida). A verdade é que o nome lhe fica “a matar”. Aliás, os três têm os nomes que lhes ficam melhor, na minha opinião. Acho que é inevitável que assim seja, ao fim de um tempo… (mas também acho que esta inevitabilidade não se aplica aos “Escanifobéticos” deste mundo).
    P.S. – Tristão não me encanta por aí além… O vosso filhote (Nuno? Paulo? Ó p’ra mim a tentar adivinhar, sabendo de antemão que não vou ter resposta) não perdeu nada!

  14. Afinal, André, qual é o nome do teu filho? O meu era para ser André mas era o nome do nosso empreiteiro e nao soava bem…

      • “Mexicano” é um nome ou é uma alcunha mais querida?? É que nunca tinha ouvido esse nome… para mim isso é uma nacionalidade… mas como já conheci um “Marciano”… já nem digo nada!
        Mas só pelo trabalhão que foi pa escolher… qualquer nome a que se chegue a consenso será uma vitória.
        Parabens! Adorei ler o que escreves.

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