Os primeiros dois meses – 5 razões pelas quais os bebés são incompetentes

Passada a adrenalina dos primeiros dias começamos a achar que se calhar até vai correr tudo bem. O bebé continua vivo e até nos deixa ver um episódio de uma série (daquelas de 20 minutos, claro) sem grandes interrupções. No entanto, dia após dia, começa a tomar forma uma suspeita em relação ao novo habitante da casa. Ao início não passa de uma impressão que, passadas umas semanas, já é uma verdade silenciosa entre o casal. Ao fim de dois meses é uma certeza: os recém-nascidos, além de desinteressantes, são profundamente incompetentes.

A verdade é que um recém-nascido só é competente a fazer uma coisa: queixar-se. De resto, nada. A partir dos dois, três meses, já é um pouco diferente, mas até lá – uma nulidade. É como se a natureza tivesse planeado a gravidez até aos 12 meses, mas depois o homem argumentou que “antes um bebé incompetente do que uma grávida um ano inteiro”. Faz sentido.

Estas são as principais áreas de incompetência do bebé recém-nascido:

#1 – Comer

Se puserem uma mãe a dar de mamar a um bebé com um mês ao lado de uma mãe a amamentar um bebé de cinco meses, reparam que enquanto a primeira mãe, entre esgares de dor, está a tentar perceber se o bebé está a comer, a dormir ou a tentar sintonizar a Marginal, a segunda já se despachou, teve tempo para ler o Expresso e arranjar-se para ir jantar fora. Ok, esta última não é verdade.

Os bebés, quando nascem, além de pequenos vampiros desdentados, são tão pouco eficientes a mamar que, muitas vezes, chegam mesmo a “adormecer na mama”, que é como se alguém decidisse utilizar um prato de bacalhau à brás como almofada.

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“Adormecer na mama” também pode ter outros significados.

Depois se os resolvem “tirar da mama”, outra expressão técnica que também poderia ser adaptada à política nacional, protestam muito, como quem diz “hei, ainda não acabei, que é isso, não quero saber se são quatro da manhã e estamos aqui há uma hora, eu gosto de comer ao meu ritmo”, e lá continuam num schlerrp, schlerrp irritante.

#2 – Aguentar a Cabeça

Por alguma razão cruel, o criador (ou uma sucessão cumulativa de mutações evolutivas, conforme preferirem), decidiu que os bebés iriam nascer sem a capacidade de suportar o próprio pescoço. Isto significa que se pegarmos num bebé sem ter cuidado para suportar devidamente a cabeça, toda a gente que estiver no mesmo espaço vai exclamar “ai, a cabeça do menino!”, como se estivéssemos num filme português dos anos 40.

Eu sempre fui aquela criança, como a minha mãe fazia questão de me lembrar, cuja destreza de mãos oscilava entre o nível “manteiga” e o “martelo”, ou seja, ou deixava as coisas cair ao chão ou as partia com brutalidade desastrada. Eu era aquela pessoa que nas festas de anos partia um brinquedo do aniversariante, e deixava-o na estante o mais bem arranjado possível, à espera que ninguém reparasse, ou que o próximo miúdo o fosse buscar, desconjuntando-o em flagrante, para levar com as culpas e arcar com a vergonha.

"iiih, partiste!"
“iiih, partiste!”

Assim, tive de passar daquela pessoa a quem tinham de pôr os bebés nos braços para tirar fotografias, para a pessoa que tem de pegar conscientemente num bebé, coisa que só fiz depois de ter estudado várias técnicas e diagramas.

Dica: não é assim. (imagem original)
Dica profissional: não é assim. (imagem original)

#3 – Acordar e adormecer

Lembram-se daquela sensação de acordar sem saber exactamente onde estão, com uma ressaca brutal a latejar nas têmporas, e uma desconhecida de olhar alucinado a perguntar-vos se querem ir tomar brunch? Como, não? Ah, ah, eu também não! Mas, se me lembrasse, saberia que naqueles primeiros instantes de desorientação, em que tentamos perceber onde está a nossa carteira e se temos os dedos todos, são uma boa expressão do terror desamparado que um bebé sente quando acorda.

Brunch?! Oh não, vim parar outra vez aos subúrbios!


É que, o acordar, para um bebé, torna-se numa lembrança cruel de que a vida não são nove meses a flutuar numa espécie de bagageira super confortável. Que existe um mundo exterior, onde as pessoas não flutuam em placentas, e os famosos imitam cantores conhecidos num programa que ninguém sabe bem para que serve.

Até se percebe que ele fique irritado. E, para piorar as coisas, um bebé não faz a mínima ideia do que é adormecer. Que existe essa possibilidade de voltar a dormir, fechando os olhos e pensando no que faria se ganhar o Euromilhões. O resultado é frustração, cansaço e mais berraria.

É como se uma pessoa tivesse comichão no nariz e não soubesse que o podia coçar com o dedo, e a única forma de aplacar a comichão seria esfregar a cara nas costas da pessoa à frente na bicha do Pingo Doce.

#4 – Assoar-se

Aparentemente, quando os bebés nascem depois do Verão, ou durante o Outono, passam a pertencer a esse grupo selecto de Bebés de Inverno. Bebé de Inverno não é uma maneira querida de descrever um bebé vestido à esquimó, é um eufemismo para bebé sempre constipado.

Um dos problemas das constipações é que os bebés não sabem respirar pela boca.  O bebé passa a dormir pior, ressona como um tio alcoólico numa casa de férias, e ameaça sempre com a possibilidade da constipação degenerar numa série de doenças assustadoras.

Pior ainda, o bebé não se sabe assoar. Escusam de tentar dar-lhe um lenço para a mão, mesmo aqueles floridos que cheiram a alfazema, porque ele só vai olhar para vocês com a mesma irritação daquela vez que lhe taparam uma das narinas, na esperança de conseguir reproduzir aquela técnica da escarreta nasal que os/as jogadores da bola fazem tão bem.

É aqui que entra mais uma das mais sofisticadas ferramentas tecnológicas da puericultura – o aspirador de ranho.

Dica de profissional - não se esqueçam do filtro.
Aconselho a não se esquecerem do filtro.

O único problema é que a realidade pacífica (e com tons ligeiros de lavagem cerebral) que se vê na imagem não corresponde ao que passa no mundo real. Para um bebé, o cenário é mais ou menos assim:

"Continuo com o nariz entupido, mas já me passou a dor de garganta".
“Continuo com o nariz entupido, mas já me passou a dor de garganta”.

Por isso é que, sempre que lhe estamos a aspirar o nariz, eu vou dizendo nomes de pessoas e coisas que não gosto, como “Jack Johnson”. Assim , sei que sempre que ele ouvir Jack Johnson no futuro, vai achar que “esta música é tão má que parece que me estão a arrancar as entranhas pelo nariz”.

#5 – Interagir

Mesmo as pessoas que nasceram com aquele chip que as faz achar os bebés são muito queridos, que  atravessam a rua esbugalhadas directas a espreitar para dentro de qualquer carrinho de bebé, não podem negar que, nos primeiros dois meses de vida, um recém-nascido é um individuo profundamente desinteressante.

Se repararem, os adjectivos com que se descrevem os recém-nascido não variam muito, e são muitas vezes figuras de estilo para disfarçar banalidades, por exemplo:

ele é muito vivo = está de olhos abertos

é muito perfeitinho = tem os dedos todos.

ah, é um amor = é um bebé, sim senhora, não sei mais o que poderei dizer.

Há quem fique muito entusiasmado quando o bebé agarra um dedo (um reflexo comum, ele agarraria uma salsicha de lata da mesma maneira) ou quando vê um o bebé sorrir (podem não ser gases mas também não é felicidade), o que, já por si, demonstra o quanto aborrecido é um ser desta idade. É que não dá para puxar muito por eles.

Nem o Daniel Oliveira consegue.
Nem o Daniel Oliveira consegue.

OK, há uma excepção. É nestes primeiros tempos que o bebé consegue provocar nos pais as primeiras sensações, novas e arrebatadores, daquele que é um amor incondicional tão forte e tão intenso que quase se torna doloroso.

Mas, tirando isso, não é como se ele já conseguisse jogar videojogos connosco.

 

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21 Comments

  1. Apesar de todo este texto ser de uma frieza que congela, e muito pouco fofinho, diga-se, há que admitir que é tudo verdade! Mas… a quem é que eu quero enganar? Pudesse eu, e tinha já outro… mesmo sabendo que, inevitavelmente, o meu bebé passaria por esta fase pouco ou nada interativa!
    Adoro a sua escrita criativa! 😉

  2. Pois ao contrário da primeira comentadora, eu acho imensa piada a este tipo de escrita pseudo-distante, fria e pragmática. Além de que sabe-se sempre que o André terminará com um/a frase / parágrafo amorosa/o. 🙂

  3. Diga-se que o aspirador nasal só funciona em momentos cuidado-o-mundo-está-prestes-a-ser-invadido-por-ranho-intenso, de resto, bem podes escarunchar, que não levas nada.

    Há também um facto descurado, ou talvez fruto da maravilhosa inexperiência: o momento chuva dourada. No meu caso, para além de chichi, fui presenteada com uma belíssima diarreia em jacto, mostrando-me o quão especial é a missão de uma mãe e, no fundo, justificando as facturas que ando a guardar para lhe dar aquando o seu 18º aniversário.

  4. Lololol!! Muito bom! E eu sou das que se derretem com bebés, mas acredito em cada palavra que li…
    Dentro de 7 semanas, mais coisa menos coisa, estarei mais apta para te desmentir ou contra argumentar! Ou não… 🙂 beijo e dentro de um mês quando ele começar a interagir não sei que futuro terá este blog! 😉

  5. Omeu filho que amo ais que tudo tem 2 anos e meio. Em relação a este texto so tenho uma coisa a dizer:
    AHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!
    (Respect)!

  6. Quanto à utilização do aspirador nasal… eu cantei, fiz palhaçadas, tentei fazê-lo rápida e disfarçadamente, mas nunca me lembrei desta útil possibilidade!!! A imagem de tortura fez-me relembrar esses momentos!
    Adorei!
    Parabéns pelo blog (estou fã), pela criatividade e sentido de humor 🙂

  7. Apesar de… não concordar com tudo tudo o que aqui foi escrito 🙂 , devo que confessar que me ri bastante com a forma com “encara” esta realidade! Parabéns pela criatividade com que escreve! 🙂

  8. estive a ler o post, e ri-me enquanto lia, ao que a minha filha perguntou poque me estava a rir, e achou muito estranho eu estar a ler textos de uma pessoa que não conheço 🙂

  9. Parabéns pelo texto! Por entre gargalhadas silenciosas (para que o meu bebé de 2 meses não acordasse do seu sono de 10 minutos), pensei: afinal não sou só eu que penso assim! Adoro o meu rebento (o primeiro), mas de facto, os bebés são uns fofinhos lindos que nos primeiros meses são tudo aquilo descrito acima.

  10. Adorei! Mas entre gargalhadas mal contidas, acabei por acordar o rebento…
    Apesar de amar a minha cria de 2 meses incondicionalmente, eu sou daquelas que nasceu sem chip. Sempre disse (e fui muito criticada por isso) que para mim, eles deviam de vir via “ebay” e já agora com livro de instruções. Mas como não é possivel… Lá vamos fazendo o melhor que conseguimos… Nem sempre com muita paciencia, mas sempre com muito amor.

  11. Mãe, pela primeira vez, de uma bebé com quase 3 meses, dei de caras com este seu texto numa pesquisa no google.
    Fiquei presa ao texto, com lágrimas nos olhos de tanto rir.
    Fiquei fã e já fui fazer like no Facebook.
    Obrigada por este momento 🙂

  12. apesar de adorar a minha florzinha de 2 meses, tenho de admitir a realidade… só lhe acrescentaria o item 6: as fraldas – conteúdos produzidos e exigência da sua rápida troca. bem haja

  13. Adorei o texto e dei por mim a rir à gargalhada enquanto o meu marido olhava para mim estupefacto a pensar se eu teria endoidecido de vez!!! Tenho uma bebé de 2 meses e concordo com tudo o que escreveu!!! Uma forma bem engraçada de ver as coisas!

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