5 traumas dos primeiros dias (com o bebé em casa)

O nascimento do bebé deve ser um bocado como a sensação de uma pessoa se licenciar nos tempos de hoje. Cinco segundos de entusiasmo por ter-se conseguido chegar até aquele momento, seguidos uma sensação de terror profundo em relação ao que nos espera.

Os primeiros dias são uma mistura de sensações ampliadas pela privação do sono, uma montanha russa de sentimentos que vai do falhanço à invencibilidade, passando pela vontade de bater com um pau em toda a gente.

Estes foram alguns dos aspectos que marcaram os meus primeiros dias:

#1 – O conceito de sono vai mudar para sempre

As duas primeiras noites após o nascimento do Mexicano correram muito bem. Como tive de dormir em casa, por causa dos cães, deu para descansar, jogar um Fifa e adormecer no sofá a ver trailers de filmes. “Se a paternidade for assim”, pensei eu,” isto vai correr bem”.

Quando o bebé veio para casa eu tinha aquela ideia que os recém-nascidos dormiam 23 horas por dia e só acordavam para comer. No fundo, imaginei que as primeiras semanas seriam passadas com uma espécie de tamagochi. Soa um relógio, alimentamos o bicho, ele volta a dormir, e continuamos a maratona de Breaking Bad. Exacto.

No primeiro dia, e à segunda sesta em que ele não dormiu mais do que 30 minutos, eu resolvi perguntar “mas não é suposto ele estar sempre a dormir?”. Foi aí que ouvi, pela primeira vez, a minha mulher a falar com aquela voz de gravidade dos infernos de quem é possuído pelo demónio: “MAS TU NÃO TENS ESTADO A PRESTAR ATENÇÃO? JÁ TE DISSE QUE ELE NÃO DORME NO BERÇO MAIS DO QUE UMA HORA SEGUIDA. HÁ DUAS NOITES QUE NÃO PREGO O OLHO”.

E foi neste momento que saí do meu estado de negação. Lembro-me bem de me ter deitado nessa noite com um profunda sensação de terror, por não saber se ia dormir 5 minutos ou 2 horas. Lembro-me de pensar que talvez fosse isto que os soldados sentiam quando tentavam dormir na frente de combate. Ou talvez fosse isto de que eles fugiam quando iam para a frente de combate.

"Hoje ia ficando sem um braço, mas consegui dormir quatro horas!"
“Hoje ia ficando sem um braço, mas consegui dormir 3 horas!”

#2 – As visitas

Há várias convenções sociais que foram criadas para me dificultar a vida. Cumprimentar pessoas com beijinhos, ligar para saber dos outros e visitar humanos que acabaram de ter filhos estão entre elas. Em geral não tenho nada contra as pessoas, em particular sim, mas sou terrível a gerir as expectativas sociais que derivam da aparência de ser um individuo normal.

Para piorar, as pessoas que acabaram de ter filhos, passam por um processo mental contra-natura, onde o instinto de sobrevivência (proteger a mãe e filho de ameaças externas) é substituído por aquele chamamento que todos conhecem – VENHAM VER O MEU BEBÉ! (ou como diriam no Seinfeld – Gotta see the baby.)

Aliás, garanto-vos que, há cerca de 2012 anos, já houve um diálogo assim:

M – Os Reis Magos já disseram alguma coisa?
J – Ainda não. Devem estar a caminho.
M – Mas mandaste a mensagem?
J – Sim, mandei aquela com a fotografia.
M – E com o peso, disseste o peso?
J – Sim, a que mandei para toda a gente, “Olá, sou o Menino Jesus, nasci com 3 quilos e com todos os pecados da Humanidade”.
M – E eles nada?
J – Devem estar a caminho… Sabes que eles moram longe…
M – Isso já foi o ano passado! Já deviam ter chegado, ou pelo menos ter dito qualquer coisa. Acho inacreditável não terem vindo cá ver o Salvador.
J – Se calhar perderam-se.
M – Mau. Se não aparecem dentro de poucos dias, digo-te já que escusam de vir, porque cá em casa nunca mais entram. E se vierem é melhor trazerem alguma coisa útil, tipo mirra. Mirra dá sempre jeito.

Calhou ter casado com alguém que também não partilha este entusiasmo por visitas a puérperas e recém-nascidos, e que, ainda antes das hormonas pós-parto terem entrado com força, proibiu visitas na maternidade e durante a primeira semana no seu grupo de amigos.

No meu lado foi mais fácil, as pessoas, por retaliação, não apareceram.

#3 – Sentar? Sentar é para meninos.

Por mais que tenham comprado o soro, a tesoura, a escova, as compressas, as toalhitas, o muda fraldas, o muda fraldas de reserva, o creme barreira, o creme para assaduras, o creme para a pele, o creme para a cara, o creme para o couro cabeludo, as chuchas, sei lá mais o quê, há de haver sempre qualquer coisa que falta nos primeiros dias. E não é qualquer coisa, são várias coisas, que faltarão em momentos diferentes do dia, que vão estar esgotadas nas primeiras farmácias a que forem e que trazer da outra marca vai ser profundamente errado e ofensivo. Lembro-me de não me conseguir sentar mais do que 10 minutos. Nem ver o email, nem ler o jornal, nada. O tamanho é errado, a cor ofensiva ou afinal precisávamos de uma coisa completamente diferente – tens de ir lá outra vez!

E é nesta altura que aparece a Internet. A internet cheia de fóruns, conselhos e dicas infalívies. E quando se está privado de sono e desesperado, tudo o que a Internet diz faz imenso sentido. Tenho vários arbustos de salva espalhados pela casa para o provar.

#4 – O Peso

Há dois tipos de pessoas que acham muito relevante saber o peso do bebé. As primeiras são os médicos. Sendo o peso um indicador de desenvolvimento importante, não é de estranhar que assim seja. As segundas são  toda a gente. E porquê? Não faço a mínima ideia.

Só quando estava a escrever a mensagem de anúncio do nascimento do Mexicano é que me lembrei de que era costume dizer o peso dos bebés quando nascem. Como sou uma pessoa ruim, optei por não divulgar essa informação, de tão irrelevante que me pareceu. Mas cheguei a receber algumas respostas ou chamadas a perguntar o peso, como quem não quer a coisa.

Claro que os maluquinhos que perguntam estas coisas são pessoas que já tiveram filhos. Os meus amigos solteiros e sem filhos nem do sexo do bebé se conseguem lembrar, quanto mais ter interesse em saber quanto pesa. E eu não esperava outra coisa deles. Os que já foram pais, é garantido – “então e nasceu com quanto?”.

“Com o normal?”

Isto põe-me a pensar que, excepto para, médicos, anestesistas e clubes de anoréxicas, comparar pesos só é um dado relevante no mundo das lutas organizadas. Será esta a razão das pessoas perguntarem? “Diz lá quanto é que ele pesava, só quero imaginar que se os nossos filhos lutassem, quem é que dava uma coça a quem.”

Claro que a única maneira de um recém-nascido agredir alguém é pegar nele e usá-lo como moca. Mas aí conta tanto peso como o formato da cabeça, o que explica que a pergunta a seguir seja “e foi de parto natural ou cesariana?”.

Outra hipótese, menos interessante, é que o peso é o que de mais perto de personalidade que um recém-nascido tem. Como não sabemos nada dele, dizemos quanto pesa. E há pessoas que vão fazer disso a sua melhor característica de personalidade para o resto da vida.

 

#5 – A Amamentação

Um dia em que me apeteça chatear as pessoas (mulheres) vou fazer um post só sobre a amamentação. Até esse dia vou só dizer uma coisa: sabem aquela imagem bonita da mãe em comunhão com o filho, o laço simbiótico, o vínculo emocional e físico mais forte da natureza, Adelaide de Sousa?

Agora apaguem essa imagem, e pensem em Pesadelo em Elm Street e Piraña, pensem em chamar o Mr Wolf do Pulp Fiction para ajudar a limpar a cena do crime, e, acima de tudo, pensem em manter a boca fechada. Não dêem bitaites, não vão ler coisas à net, nem tentem fazer sugestões técnicas através de mímica (vão rir-se e isso só vai piorar as cosias). Só falem se vos perguntarem a alguma coisa e nunca se desviem muito da frase “eu acho que deves fazer o que achares melhor”.

E calma breasties, já começo a sentir a vossa indignação, cá em casa, na maior parte dos dias, até sou pró-peito, só não tenho de achar bonito, ok?

E agora? Podem ir à página dos melhores posts (escolhidos por mim), subscrever o blogue por e-mail (se forem esse tipo de pessoa), ou fazer 'gosto' na página do Facebook e ter acesso a mais paisanices:

17 Comments on 5 traumas dos primeiros dias (com o bebé em casa)

  1. hahaha esse episódio do seinfeld é espectacular! por causa disso, cada vez que obrigo o namorado a ir visitar um recém-nascido, ele no carro diz sempre: vá, então vamos lá pensar no que vamos dizer se o bebé for muito feio. Até agora ainda não vi nenhum realmente feio, são sempre fofinhos!

    [não percebo porque é obrigatório escrever o meu email aqui..o paisano não consegue ver o meu email ou consegue?!]

    • Acho que se deve evitar é dizer “ah, tem um ar… simpático” (isto aplica-se a todas as idades, I guess).

      [Uhm, consegue. Também dá para inventar um e-mail, mas não vamos dizer a ninguém, ok? É que o que eu quero mesmo é registar os vossos IPs]. ]:->

  2. – Tou!! O puto nasceu!!
    – Ok.

    Nao se pergunta se a crianca é bonita, é de mau tom e assume-se que é igual aos outros todos quando nascem. Como o petiz acabou de nascer nao há grande história, ainda nao teve tempo de fazer mais nada digna de registo. Logo, se nao se perguntar pelo peso, uma conversa de anúncio de nascimento de um bebé seria sucinta e igual àquela com que iniciei o meu comentário. Aí tens a tua resposta rapaz! Agora vai mudar a fralda ao mexicano 😉

  3. Nem todos os homens com filhos perguntam nem o peso, nem nada. Cá em casa, é assim:
    Ele – O bebé do X nasceu.
    Mim – E então, como é que se chama?
    Ele – Ahamm…
    Mim – Ao menos sabes se é menino ou menina?
    Ele – ?????
    Mim – Mas que raios lhe respondeste quando te contou?
    Ele – “Parabéns, pá!”.

    E temos este fantástico diálogo sempre que um conhecido dele tem um filho!

    • Cá em casa é sempre assim, também, mas não só quando nascem os bebés! Se, por exemplo, o meu marido almoça com algum amigo que tem filhos, e depois me conta um pormenor sobre a criança, que o pai contou, e eu faço uma pergunta relacionada com esse pormenor, ele nunca me sabe dar a resposta, porque nunca lhe ocorre perguntar, na altura!

    • Uau, que viagem tão intensa. Eu gostava de falar sobre as duas seitas, mas acho que depois de ler estes posts, vou ter de dar um tempo. O meu preferido foi o “A Polo Norte não amamentou. Será por a Polo Norte não ter amamentado?” Muito Inception. 😀

      • bem, eu não fui amamentada. ou melhor, a minha mãe tentou durante 15 dias, e lá achou que odiar-me profundamente a cada mamada ao mesmo tempo que alimentar-me ser causa de sofrimento extremo não compensava. Sim, é óptimo quando corre bem, e especialmente em termos de defesas. Como contra a malária. Que não existe nos nossos paises. Nos paises africanos é importante, até porque lá nao há outra opçao.

  4. Eu quero esse post sobre a amamentação. É que eu, apesar de mulher e de ter amamentado, tenho arrepios de cada vez que sou obrigada a ver imagens tipo Adelaide de Sousa ou a ler relatos de partos em casa (nem para falar dos que correm mal), co-sleeping e coisas do género que promovem muito o vínculo filho-pais. Agora também gostava de poder rir-me com isso sem insultar ninguém 😉

  5. Excelente 🙂 Fui mae a 2 meses e partilho de 100 % de tudo o que escreveste…especialmente do MAS AFINAL ELES NAO DORMEM 23 HORAS POR DIA e acrescento…MAS NAO DORMEM EM QQ LUGAR?

  6. Parabéns pelo blog André! Divirto-me muito com a forma como escreve! E aprendo constantemente consigo! Venha lá o post sobre amamentação e todas as outras situações pelas quais não imaginamos que vamos passar. Faz de conta que estou num curso de longa duração para vir a ser uma mãe mais descontraída!

  7. Bem, tou acordada há já uma hora, pela segunda vez esta noite para dar de mamar. Deitei o pequeno à meia-noite, hora e meia da mamada (hoje decidiu nao adormecer logo), mamou às 3h e agora há pouco. Para nao falar do sono agitado que tem pelo meio. Enfim, após seis meses disto ja nao o desejamos atirar pela janela (sim, ja verbalizei isso tal era o desespero), vamo-nos habituando a andar como zombies. E para nao adormecer a cada mamada agradeço ter um tlm com net que me mantém de pestana aberta. E na pesquisa sobre sopas, pois a aventura começou agora, vim aqui parar e tive que me segurar para nao acordar o rapaz, que já dorme, com a minha vontade de rir. Até me esqueço que na hora nao tem piada nenhuma. E este sentimento feio de gostarmos de saber que alguém passa pelo mesmo tormento que nósajuda a descomprimir ou a acalmar-nos. Com humor, então, ainda melhor! Ó Deus, dá-nos forças e paciência!

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