A gravidez – as 5 coisas mais assustadoras

Confesso que não tinha boas expectativas em relação ao processo da gravidez. A ideia de uma entidade senciente se desenvolver dentro do corpo da minha mulher, indo, num espaço de nove meses, de um conjunto de células microscópico a um ser com meio metro de comprimento, que depois sai a gritar e a espernear para o mundo exterior… digamos que não era algo que antecipasse com entusiasmo.

Alterações físicas, mudanças de comportamento, planos de escravizar o homem, e uma vontade enorme de bater em alguém? As distinções entre a gravidez e filmes de ficção científica sobre parasitas alienígenas são muito ténues.

“Não é evidente qual deles é que faz de alien”
Não é evidente qual deles é que faz de alien.

Ainda assim, até que todo o processo da gravidez correu menos mal do que eu estava à esperam, sobretudo levando em consideração os seguintes pontos.

#1 – As Hormonas – um novo inquilino cá em casa

Um dia, entre enjoos e alterações hormonais, apareceu uma figura nova lá em casa. A esta figura chamei, carinhosamente e sem grande rasgo de genialidade – Monas. Pode ser a resposta que damos a uma pergunta que nos parece inocente, pode ser uma reacção a uma observação (ou um ataque vil, depende da perspectiva) que fizemos, o Monas é imprevisível e não se faz anunciar. É tão sorrateiro como inclemente.

Há vários aspectos da personalidade de Monas que tive de aprender a respeitar:

Espera solidariedade da nossa parte,

Monas – “como é que podes defender aquela estúpida que não me deixou passar quando eu não tinha prioridade?”

EU – “tens razão, querida, muita sorte já tem ela que abrandaste no STOP”;

Exige equidade no tratamento,

Monas – “és assim uma besta tão insensível que não percebe a importância de haver cinco casacos meus espalhados pela sala?”

EU – “claro que sou, querida, aliás, vou já tirar o meu único casaco que está aqui para fazer espaço para os teus”;

Pede compreensão para toda uma nova sensibilidade emocional, que sobressai, por exemplo, ao ver aquelas séries indiferentes que dão na FOX à tarde, tipo Bones,

Monas – “não estás a ver que ela não é fria e insensível? É só desastrada emocionalmente, coitadinha!”

EU – “hmm, certo, isto é sobre aquele vampiro que também é detective, é isso?”.

Buffy e Angel
Agora ainda fiquei mais confuso.

#2 – As ecografias

É mais provável que um pastor gardunhense, em 1969,  conseguisse entender melhor as imagens televisivas do Neil Armstrong a pisar à Lua, do que eu a olhar para uma ecografia. No fundo, temos um ignorante – eu -, a olhar emocionado para borrões ondulantes num ecrã monocromático sem perceber patavina.

Normalmente, há dois grandes momentos ecográficos durante a gravidez, um acontece às 12 semanas (3 meses, para os leigos) e o outro às 20 semanas.

As ecografias são momentos ambivalentes. Por um lado são das poucas oportunidades que temos para ‘ver’ o bebé, o que cria uma situação de proximidade especial entre nós e o filho, por outro também são uma espécie de exame, um momento de responsabilização dos pais perante a sociedade e o médico.

Acresce a isto que as ecografias também são momentos importantes de despiste de condições como o Síndrome de Down e outras complicações. O médico vai cruzando uma série de informação clínica com as observações do monitor, o que lhes vai permitindo estimar probabilidades e detectar situações anómalas. Isto fez-me assumir a pele de um Mentalista, outra daquelas séries indiferente da FOX, a tentar interpretar as nuances de comportamento e as mais subtis expressões do médico.

crazydr
Pelo modo como arqueia as sobrancelhas concluo que este médico é doido varrido.

Até há sítios em que nos dão um DVD com as imagens do exame. O DVD é muito útil para nunca mais o vermos nem sabermos sequer onde ele está. Mas nem pensem em dizer que talvez seja escusado querermos gravar uma sessão de ecografia – arriscam-se a levar uma cabeçada do Monas.

#3 – Os Desejos

Eu bem que temi, esperei e antecipei, mas nunca vi essa história dos desejos gastronómicos a acontecer. E é uma pena, porque ter de ir de urgência comprar pastéis de Belém ou croquetes ao Gambrinus não me pareceria nada má ideia.

#4 – A Barriga

No primeiro trimestre, e quando passa o choque inicial, era fácil esquecer-me de que a Ana estava grávida. A vida decorre mais ou menos na normalidade, com a eventual pausa para uma consulta médica e termos de ouvir sobre o que é ter enjoos o dia todo, mas tirando o facto de ter perdido a minha melhor companheira de copos, não há grandes diferenças.

Bageiras Garrafeira 2005
Vais ter de beber tudo sozinho. Pela tua família.

 

No segundo trimestre há um dia em temos um choque de realidade – é quando aparece a Barriga. A Barriga é a maneira mais clara que o Universo arranjou de dizer “é bom que percebas que há algo de novo nesta relação, algo que tens de proteger, reverenciar e, sobretudo, deixar passar primeiro nas portas”.

A Barriga está sempre lá, com um ar que oscila entre o majestoso e o ameaçador. Está lá quando acordamos de manhã ressacados para nos lembrar que talvez não seja boa ideia continuar com esse estilo de vida, está lá para nos fazer sentir mal quando achamos que se faz qualquer coisa para jantar com os dois únicos ingredientes que existem em casa, e, acima de tudo, está lá para dizer que na discussão de quem vai passear os cães só vai haver um perdedor – eu.

#5 – O pinguim na sala

Como qualquer boa história, é no terceiro acto que as coisas se desenrolam, portanto é no terceiro trimestre que as coisas começam a ficar verdadeiramente assustadoras. Começa no dia em que vi a minha mulher a andar com aquele baloiçar característico de certos animais polares.

gif pinguim
Continua a ser o melhor .gif de sempre.

 

Como se não bastasse, outra imagem, não menos traumatizante, que começa a ocorrer por esta altura, é ver uma mão ou um pé a pressionar, por dentro, a barriga. Conheço pais que chegaram a ser agredidos no sono por pontapés dos filhos. Eu não tive esse azar, mas das poucas vezes que fiz aquele número de falar para a barriga, foi para dizer “não dês murros nas costelas da mãe, que depois quem apanha sou eu”.

Já na fase final, a partir das 37, 38 semanas, começamos a perceber que a coisa pode acontecer a qualquer momento. Seja anunciada por essa imagem aterradora do rebentar de águas, que imaginava sempre tipo geyser da marginal de Caxias, projectando a mãe em jacto pelo tecto adentro. Ou a variação menos explosiva da saída do Rolhão Mucoso, um termo que só pode ter sido inventado por alguém com sentido de humor peculiar.

É normal que por esta altura, sobretudo se coincide com o Verão, que a mãe comece a revirar os olhos sempre que alguém fale na maravilha da gravidez. Eu sentia aquele ocasional olhar que dizia “vês o que fizeste? A culpa é toda tua”.

Às tantas também dei por mim a pensar que se calhar estava mesmo na altura. Se possível, preferia que não me estragasse o fim-de-semana, mas senti-me, pela primeira vez, pronto para conhecer o meu filho.

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10 Comments

  1. É pah to a adorar! Apesar de andar à uma semana violentamente explosiva com a minha cara-metade que já não fala para não interromper os meus pensamentos, hoje estou a divertir-me! Viva a gravidez!!

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