A questão – porquê ter filhos?

Depois de receber a notícia de que ia ser pai, e tendo aceitado relativamente bem o porque não da situação, fiquei obcecado com o porquê, ou o para quê de ter um filho (sim, os meus desajustes mentais têm uma noção impecável de timing).

Pior ainda, resolvi partilhar essas angústias metafísicas com o meu círculo mais próximo de amigos e familiares (a minha mulher optou logo por ignorar-me). Foram semanas a chatear pessoas com ‘porque é que queres ter filhos?’, ou ‘porque é que tiveste filhos?’. E acho que nem sequer fazia a pergunta em tom jovial e alegre, como seria tolerável num pai expectante e ansioso; é bem possível que tivesse mesmo uma ligeira  intensidade psicopata.

'A sério, porque é que queres ter filhos?'
‘A sério, porque é que queres ter filhos?’

As respostas variavam entre:

 Sei lá, porque sim.

Que é uma das melhores respostas para dar a um lunático que se põe com estes delírios, não dá espaço para grandes contra-argumentações.

– Para assegurar a propagação da espécie.

Sim, o instinto de sobrevivência, o gene egoísta, o sentido da vida, mas a não ser que o vosso filho descubra a cura para o cancro, ou algo do género, este argumento não faz muito sentido. A sério que querem “propagar a espécie”? Já viram um telejornal?

– Porque torna as pessoas menos egoístas.

Para um misantropo* com tendências isolacionistas este argumento até pode ser apelativo, o problema é ser um misantropo com tendências isolacionistas.

capa revista mariana
Hoje em dia é muito fácil ser misantropo.

*misantropo é uma pessoa que chega aos 33 anos e decide que não gosta de ir a concertos.

– Para ter alguém que cuide de nós quando formos velhos.

É uma resposta lógica, sobretudo numa perspectiva evolucionista, mas compara ter filhos a subscrever uma espécie de PPR, aliás, um PPR péssimo , mais caro e sem grandes garantias, ainda que com algumas vantagens no IRS.

– Porque toda a gente o faz!

(Estou a brincar, ninguém disse isto. Mas aposto que pensaram).

Estes momentos pouco inspirados no historial do meu comportamento em sociedade culminam num almoço com o meu pai, em que consigo formular a questão de um modo ainda mais bizarro, deixando sair um – ‘mas qual é exactamente o retorno de se ter filhos?’ Acho que o meu pai, em linha com os seus altos valores de bom senso e dedicação absoluta à família, fingiu que não ouviu. Mas imagino que deva ter pensado – ‘nestes momentos, também não sei’.

A melhor aproximação visual à expressão que o meu pai fez.
Mais ou menos a cara que o meu pai fez.

Entretanto, algures na Internet alguém terá perguntado a alguém (a imagem já veio assim, em formato anónimo) porque é que um agnóstico teria razão para ter filhos, e esse alguém responde assim:

razaodeterfilhos
Construir uma família pode criar o mais forte tipo de laço que conhecemos… amor incondicional. Este amor é simbiótico. Fortalece tanto os pais como os filhos, e vale absolutamente que o partilhemos, vivamos por ele, ou morramos por ele.

Com uma ou outra variação, acho que era isto que as pessoas me queriam dizer, e que eu comecei a perceber aqui há uns meses. Ainda que devagar.

Talvez até acrescentasse que outra das características marcantes de toda esta experiência, é a renovação da nossa capacidade de contemplar este fenómeno incrível que é a vida, uma capacidade que, se calhar, fomos perdendo por aqui e por ali.

Não há misantropia que resista a isto.

E agora? Podem ir à página dos melhores posts (escolhidos por mim), subscrever o blogue por e-mail (se forem esse tipo de pessoa), ou fazer 'gosto' na página do Facebook e ter acesso a mais paisanices:

12 Comments

  1. Menos mal… ninguém respondeu que quis ser pai para ter companhia para ir ao futebol ou atirar pedras aos carros dos viadutos da autoestrada da Ponte…

  2. Muito bom, ainda estou a rir, cá em casa também houve essas perguntas, e já lá vão 4 filhos 😉

  3. Ainda bem que n sou a única a perguntar estas coisas, faz mais sentido perceber a razão de se ter filhos depois de os ter. Antes a vida é fabulosa al como está, para quê mexer? Para alem do q mencionaste ter filhos dá-nos um afeto tão genuíno que dificilmente encontramos nos outros. Mas apesar de tudo, continuo a dizer que a vida sem filhos é extremamente gratificante, por muito que possa chocar olhares alheios.

    Ah, escreves mto bem, parabéns.

  4. olha que magnifico! aqui estão razões decentes e credíveis. ninguém me conseguiu apresentar nenhuma destas quando o perguntei no blog. toda a gente falou em sentimentos, ocupar espaços vazios e escolhas emocionais.
    obrigado por me fazeres ver a luz.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*